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Entrevista
Ano
9 - nº 79 - 15 de fevereiro de 2010
Maria
Angeles: a educação dá certo!

Maria Angeles Almacellas
Bernardó é doutora em educação e professora
da Escola do Pensamento e Criatividade, na Espanha. A entrevista que abaixo
publicamos foi realizada originalmente em abril de 2003 e está
disponível em www.cmariocovas.sp.gov.br.
P: Um dos problemas
com o qual os educadores se deparam no Brasil é o de um posicionamento
negativo dos alunos. Diante de qualquer afirmação, se opõem. Em suas conferências
e textos, observa-se que este é um problema também enfrentado na Espanha.
R: De fato, não se pode afirmar nada para os alunos hoje, particularmente
aos adolescentes. Aqui na Espanha costuma-se dizer: “De qué se trata,
que me opongo” (risos). Então é conveniente facilitar para eles a descoberta
daquilo que ensinamos, porque, quando eles fazem a descoberta, assumem
como suas as afirmações. E então as defendem. Nunca se deve cair na armadilha
de o professor antecipar uma afirmação, uma conclusão. Se eu lhes dissesse,
por exemplo, que não é conveniente ter relações sexuais, eles vão se colocar
na defensiva. Agora, se eu faço com que vejam o que é o amor, como se
cria o amor, como são os processos humanos, como um homem se constrói
como pessoa, como se destrói, como podem destruir sua própria capacidade
de amar etc. Quando eles descobrem isso, tiram suas próprias conclusões.
O professor tem que ser guia. Para que eles descubram, eu não tenho que
desaparecer, eu sou guia. A função de líder do educador é para que não
se desviem, porém age de modo muito discreto. Os garotos descobrem que
- para se criar o amor, é necessário se educar. Que para obter um valor
superior como é o amor há que negar um valor inferior como a relação sexual
prematura. Quando eles descobrem que os dois níveis não se opõem, mas
se integram a partir do primeiro e não dá para ficar só no segundo; quando
eles descobrem isso, defendem essa posição com unhas e dentes. Bem, como
fazemos isso? Em princípio, a primeira descoberta que eles têm que realizar
é o da diferença entre os diferentes modos da realidade. Isto eles entendem
bem. Ou seja, que as pessoas têm uma dimensão objetiva e uma dimensão
ambital. As pessoas ocupam um lugar no espaço, podem ser empurradas...
Etc. Porém onde termina a dimensão social de uma pessoa, a dimensão afetiva?
Isto é um âmbito de vida. Isto eles entendem bem. De acordo com a idade
dos alunos este trabalho pode ser feito mais intelectualmente, ou mais
“teatralmente”. Dependendo da turma, pode-se com um gesto medir a envergadura
do aluno (de ombro a ombro) e depois perguntar: é aqui que termina o amor
que você tem pela sua mãe? Claro que não, pois essa é uma dimensão ambital.
Eles entendem bem que existem objetos e âmbitos, então entendem o que
é nível 1 e o nível 2. Entendem também que para cada realidade existe
um trato adequado: não posso tratar do mesmo modo uma pessoa e um embrulho.
A pessoa merece um respeito próprio: se eu a empurro, ela vai reagir,
ela não é um embrulho. Então compreendem o que são as relações que posso
ter com um objeto e as reações reversíveis, interpessoais, interambitais;
e o âmbito mais rico é a pessoa. Veja, muitos garotos, aqui, tocam violão.
Se eu não sei tocar, para mim, é apenas uma caixa de madeira. Porém se
eu a sei tocar e a trato com respeito que é o que corresponde a um instrumento,
ela me brinda com suas possibilidades de sonoridade. Se eu sei música,
brindo a “caixa” com meu conhecimento e o resultado é a melodia. Então
se eu acolho as possibilidades que o violão me oferece, eu ofereço a ele
minhas possibilidades de saber tocar. Quando há uma relação reversível,
sempre há fecundidade; neste caso: surge a melodia. Entre duas pessoas,
surge a amizade, amor de qualquer tipo. Quando uma das pessoas trata a
outra como um objeto, isto é, estabelece uma relação linear, coloca a
outra a seu serviço; ela se ofende e com razão: é uma pessoa e merece
um bom tratamento. Quando eles descobrem isso, normalmente eu ensino como
se desenvolve a pessoa. E a pessoa se desenvolve criando encontro e orientada
ao ideal da unidade. Então entramos nos processos humanos básicos. Eles
entendem a partir de sua própria experiência e eu ainda não entro em temas
cruciais porque se entro, eles vão se fechar. Não entro no tema das relações
com o amor, com o fumo, com o álcool... Eles chegam a isso por si mesmos.
Nesta fase, abordamos somente da teoria, da fundamentação. Estamos vendo
quem é o homem e qual é o seu sentido de vida. Já sabem em que nível de
realidade estamos situados. Só trabalhamos com o nível 1 e 2 com os jovens.
Há mais níveis e eles entendem bem. Quando o amor é totalmente oblativo
e não espera nada em troca, você terá subido de nível. E quando é a relação
com o Poder que o criou, terá subido de nível novamente. Pode também rebaixar-se
para o nível 1, se trata mal a uma pessoa, se a mata, a viola.... Eles
logo percebem que há mais níveis acima e abaixo, mas eu – normalmente
– não os abordo porque trabalho com garotos até 16, 17 anos e se trabalham
bem os níveis 1 e 2, já me basta. Então lhe explico como o homem se constrói
como pessoa e como se destrói, porque o ser humano tem que crescer é a
lei da vida. Então conto o caso das japonesas cujos pés, quando pequenas,
são enfaixados para que não cresçam... elas sofrem e ainda por cima os
pés se deformam. No nível espiritual, acontece o mesmo. Quer dizer, na
vida há dois caminhos e não escolher, já é escolher... Veja, estamos em
uma base. É uma base muito pequena, porém, eles entendem que se é assim,
para que uma pessoa se desenvolva de verdade é necessário criar relações
reversíveis., quer dizer encontros interpessoais, mais ricos. Isso leva
a pessoa ao seu máximo desenvolvimento. Nesta fase, contudo, eles, no
fundo, confundem a relação de coleguismo com a relação de amizade. Não
temos que nos preocupar, há todo o ano e depois ainda o ano seguinte.
Não precisamos correr, temos tempo. Então eles entendem que o homem se
desenvolve com a experiência do encontro. E entendem também o inverso:
que você pode ser usada como um meio para meus fins, eu exploro, aproveito,
espremo a pessoa como um limão e depois a jogo no lixo. Isso destrói a
própria pessoa que age assim. Quando eles entendem isso - e são as primeiras
descobertas; básicas, fundamentais -, então introduzo o tema que quero
trabalhar com eles. Por exemplo, o alcoolismo. Não sei se no Brasil há
o mesmo problema, mas os garotos aqui começam a beber muito cedo. E nos
fins de semana, fazem o que aqui se chama “el botellón”, vão a um parque
para beber. E isso se converteu em um fenômeno social. Porém em um fenômeno
do qual não estão conscientes do estrago que estão causando em si mesmos.
Estão se destruindo fisicamente. Eles dizem: não, eu controlo. Esta é
a palavra mágica: eu controlo. O álcool, obviamente, leva ao tabaco e
imediatamente se chega à maconha. Então as crianças se iniciam na maconha,
aos 12, 13 anos. O problema é muito sério e em todos os lugares trabalha-se
esse tema sem nenhum resultado. Existe, na Espanha, a fundação contra
a dependência de drogas, que tem até um programa de filmes, porém não
há fundamentação. Se não há uma fundamentação prévia, os garotos vêem
os filmes, as campanhas e assistem a palestras sobre alcoolismo etc. e
os garotos dizem: “Puxa, que coisa! Mas eu... eu controlo isso”.
P: E a senhora
trabalha muito com cinema e literatura.
R: Sim, primeiro dou a fundamentação e depois digo: agora, vamos ver um
filme sobre alcoolismo e quero que reparem no processo de destruição humana.
Quais são as causas?, que pontos tem esse processo?, que conseqüências?,
por que acontece isso?, é possível evitar?, em que ponto se pode evitar?
etc. Eu lhes dou vários pontos para que analisem o processo de destruição
humana e nada mais. Depois apresento um filme que conta a história de
um alcoólatra. Eu não lhes falo de alcoolismo, mas sobre os processos
humanos de destruição. Eles assistem ao filme, tomam nota, eu lhes dou
um questionário. E há um momento no filme (“28 dias”, com o qual estou
trabalhando neste ano) em que a alcoólatra fala precisamente: “eu controlo”.
Há um momento em que o diretor do Centro onde ela está internada atina
profundamente com nosso tema: “O problema é que sempre você procurou gratificações
imediatas”. Depois de umas duas horas em pequenos grupos, fazemos um grande
grupo e ali, eu preparo as perguntas; mas fico calada. Quando me perguntam,
eu não respondo. Só acuso ambigüidades porque é claro, quando eles se
vêem encurralados pedem que eu resolva algo para poderem ir em frente.
Mas não se pode cair nesse erro. Se eu respondesse: sim, o alcoolismo
é uma vertigem destrutiva... eles diriam: Não! Por isso, não respondo,
mas retomo, vocês estão aqui para discutir, vamos ver o que os colegas
opinam. E eles dizem: é, o álcool é uma vertigem destrutiva. Em seguida,
peço um trabalho escrito, em que haja, digamos, uma conclusão pessoal.
Além disso é impressionante o resultado. Muitos desses garotos já tinham
experimentado, não estamos tratando de puras teorias, mas de experiência.
E não somente eles deixam de beber como se interessam para que ocorra
o mesmo com seus amigos! Outro dia me disseram em uma classe de 30 alunos,
de 16, 17 anos, uns alunos: Fulano deixou de fumar maconha e cigarro...
Era o último!! Eles ficam encantados com a fundamentação. Quando começamos
o curso, dos 30, uns 14, 15 fumavam e bebiam. Em este mesmo grupo, trabalhamos
a formação para o amor. Estamos trabalhando neste momento com isso. Mas
é mais fácil porque já sabem os processos. A sexualidade no nível 2 tem
sentido. No nível 1, só tem significado, não sentido. Um garoto me procurou
outro dia: “Quero falar com você, professora. Eu já tive relações com
minha namorada. Ainda é possível criar o amor?” Eu respondi: “Veja, nos
carros há uma alavanca que diz marcha a ré”. Ele continuou: “É o que eu
quero!” Chamamos de Pedagogia da Experiência e em minha última conferência
na Argentina, chamei de Pedagogia da Descoberta. Creio que assim se inclui
a experiência, porque é a experiência pessoal, a própria vida, que os
ensina a pensar. Com crianças pequenas, isto se faz com contos. O quanto
antes se começa a educar, melhor. Tenho feito um trabalho de pesquisa
sobre o caráter formativo dos contos de Perrault:: Chapeuzinho Vermelho,
Cinderela, Gato de Botas... No início não via caráter formativo algum,
mas depois, lendo toda a obra, vi claramente seu valor. Não na “moral
da história” que não vale nada. Porém nas adaptações dos contos, Perrault
põe uma mensagem muito séria: o mal é muito poderoso, esmaga o bem; porém
– ao final – o mal se autodestrói e o bem triunfa. Essa é a grande mensagem,
quer dizer que o nível 1 parece que vence, mas o nível 2 é discreto, tranqüilo,
acolhedor e acaba triunfando. Só há um caso em que não triunfa: no original
de Chapeuzinho Vermelho. Eu não sabia que o lobo a comia e desaparece
Chapeuzinho Vermelho. Por quê? Porque Chapeuzinho Vermelho não sabe pensar!
Claro! Ela vai pelo bosque, encontra o lobo que é o mal, o lobo e depois
os lenhadores. O lobo é astuto e não a come aí. Chapeuzinho Vermelho não
distingue o bem do mal, não pensa. É o mesmo para ela as pessoas que a
estão ajudando e as que a levam para a perdição. O bem não pode triunfar
porque não há bem, há tolice. Isto é: devemos ser bons, mas não tontos.
Temos que começar com as crianças a partir de contos, de filmes infantis.
A boa literatura é sempre uma lição de vida. As crianças assistindo ao
filme, que são experiências humanas, aprender a ler o filme e aprender
a ler a vida. Se souber ler a vida, torna-se capaz de prever as conseqüências
de seus atos. Assim, à medida em que vão se aprofundando nesses temas,
vão realizando descobertas. Eu lhes dou a primeira base e me baseio neste
livro de Alfonso López Quintás: Descobrir a grandeza da vida vida (lançado
recentemente na Espanha): 1a. descoberta: os objetos e os âmbitos 2a.
descoberta: as experiências reversíveis 3a. descoberta: os valores e as
virtudes 4a. descoberta: o ideal da vida

P: Nem sempre conseguimos
perceber o que estão aprendendo (sobretudo em termos de valores), mas
o interessante é que estão aprendendo e isso se revela de modo inesperado
e, às vezes, também, demorado.
R: Os alunos estão pesquisando sobre o homem, é o objetivo: o que é o
homem? E como cristãos não temos que manipular nada. Eu penso que a nós
cristãos nos falta fé. Queremos ir mais longe do que o próprio Deus e
isso não é necessário (risos). Ele é Deus e nós cremos ou não cremos.
Se acreditamos que a criação é obra de Deus, plano de Deus basta ajudar
o garoto a pensar e ele se encontrará com Deus. Não quer dizer que não
tenha que falar de Deus, mas não tenho que manipular. Se algo é bom, é
de Deus e se não é bom, é errado, está equivocado. O que penso é que é
impossível que Deus tenha criado o mundo de uma maneira e que depois tivesse
vindo o Filho de Deus para mudar tudo. Ele não veio para mudar, mas para
explicar com clareza. O plano de Deus é o mesmo do Gênesis ao Apocalipse.
Além disso Jesus Cristo disse: “Eu não vim abolir a lei, mas cumpri-la”.
Cumpri-la, não mudá-la! Então ajudamos a criança a descobrir quem é o
homem e que o homem é um ser transcendente. É o que faço quando dou cursos
sobre a formação para o amor a grupos não cristãos. Dei um curso de formação
profissional para moças, atéias mas que faziam um curso de informática
num centro do Opus Dei. O centro era do Opus Dei, mas elas não. As professoras
estavam horrorizadas e me chamaram, horrorizadas: “elas têm relações amorosas
com seus namorados e uma até mora com o namorado”. E com isso as professoras
do Opus Dei estavam ficando loucas. E eu fui para falar a essas moças
sobre o amor. Esqueçam tudo que vocês escutaram no colégio. Esqueçam tudo
que diz a moral cristã e se ao final vocês chegarem à mesma conclusão:
sinto muito! Pode ser que ao final vocês cheguem à mesma opinião do magistério
da Igreja: que o homem é homem. Por ora, esqueçam: eu vou falar do homem
e de como o homem ama a mulher e vice-versa. Vou falar do Gênesis, do
Cântico dos Cânticos Veja, mudaram totalmente! Como uma luva virada no
avesso. As professoras do Opus me chamaram: “É um milagre!”. Eu respondi:
não é milagre, basta colocaram os óculos para ver o homem. Eu não lhes
falei de Deus. Uma garota de 27 anos, no final, me perguntou: você é católica?
Sou, mas além de cristã, sou pessoa, gosto de pensar e estudo filosofia:
busco a verdade. Isto é importante, por um lado, ser guia, orientar; mas
por outro lado propiciar que as pessoas descubram. Porque as coisas mudaram
muito: hoje ninguém - nem os jovens, nem os mais velhos - admite conselhos,
ninguém admite que lhes digamos o que têm que fazer. O problema não é
se existe Deus ou não, nem o que vem a ser a liberdade, nem o que podem
fazer ou não, o problema é que alguém venha afirmar. Eu penso que, nós,
os católicos estamos surdos ao que o Papa nos fala sobre a nova evangelização.
O que fazemos? Circos! As catequeses são circos. Não, a evangelização
é nova porque deve dirigir-se ao homem de hoje com a linguagem de hoje.
Ou seja, temos que descobrir a linguagem porque o homem mudou e só entende
a linguagem do personalismo que descobre. Esta é que é a nova Evangelização.
Claro, isso é muito exigente porque nós, que já temos idade, sabemos muito,
tudo na nossa vida foi dando certo... E, de repente, temos que mudar.
E eu, como vou mudar? Acabo passando à margem do que o Papa pede e continuo
fazendo o que sempre fiz e queixando-me de que o mundo está muito mal.
E eu não faço nada!! Meu velho método já não funciona. Funcionava há 20
anos, há dez...; mas, agora, não. Agora, o homem necessidade saber, fundamentar,
necessita experimentar. E se não se fundamenta, não lhe serve para nada.
Porque temos umas facilidades que há 40 anos, não havia. Porque há televisão
etc., e tudo é sexo, consumismo, hedonismo. Isto é assim, não conseguimos
mudar; mas podemos mudar a pessoa. Demo-lhes olhos.
P: Então para resumir:
fundamentação, método...
R: Veja, quando escolho um filme eu tenho um objetivo: o relacionamento
entre namorados, sexo, o sentido da vida, o álcool, a droga. Fundamentação
e filme. E continuamos fundamentando: eu diria que são as necessidades
básicas de um educando. Não só as descobrem como as processam e as defendem.
Então a batalha está ganha. Eles têm que não apenas intelectualizá-las,
mas transformá-las em vida. Do geral que é, digamos, a teoria; vamos ao
particular que é o exemplo, filmes ou obra literária: conto, romance,
teatro ou o que for. Então eles analisam isto, fundamentados. Ao mesmo
tempo que analisam isto, ampliam a fundamentação que vai ficando cada
vez mais sólida. Deste particular, voltam ao geral: isto é, o homem: que
acontece com o homem quando... Aqui, analisam, por exemplo, os processos
humanos e vêem o filme sobre a alcoólatra. E dizem: o homem que se entrega
a um processo humano acontece isso, se se entrega a tal outra coisa, acontece
aquilo. E do geral, voltam a passar ao particular que é a sua própria
vida.
P: Há algum momento
em que você tem um plantão, por exemplo?
R: Temos, aqui, 1 hora por semana, que chamamos tutoria. Cada grupo de
alunos tem um tutor, um professor responsável. Eu, por exemplo, dou para
a minha turma: Língua Espanhola; mas como tutora tenho, também, com eles
uma hora por semana. Esse hora era tradicionalmente usada para repreender
os alunos ou para dar-lhes avisos etc. Eu aplico todo esse programa de
formação na minha tutoria. Com as minhas outras turmas, das quais não
sou tutora coloco isso no meio da Literatura. Porque se não entendem isso
não podem entender os romances. Então, se não posso fazer de um jeito
faço de outro...
P: Para encerrar,
conte-nos um experiência que a tenha marcado nesses anos de magistério.
R: Bem, há dois anos, aconteceu um fato que veio a confirmar que estamos
no bom caminho. Um aluno que não concordava com nada. Nada, nada. Era
um pilantra: fumante, beberrão... Estava no 2o. ano do secundário e, no
final, nós professores dissemos: reprová-lo, não! Que termine o curso
logo e tchau! Porém era muito jovem e ainda não poderia ir embora. Ele
tinha 15 anos e é necessário ter 16. Era necessário agüentá-lo um pouco
mais. E eu era sua tutora. Eu o conhecia porque lhe dera aulas antes.
Na tutoria, o fiz trabalhar o método e começou a mudar. E me disse um
dia: - Professora, posso falar com você? - Claro. - Veja, eu sou um “sacana”
(cabrón). - Até aqui, estou de acordo. O que mais? - É isso. - É isso
que você queria me dizer? - Sim - Bem, está dito. Na classe, ele era o
líder. Ele sozinho podia com toda a turma. Era o líder. No fim do curso,
veio conversar. - Eu estou pensando na vida... Era setembro. No mês de
abril, o professor Alfonso López Quintás proferiria uma conferência. Ele
foi. Sentei ao lado de D. Alfonso e lhe disse: “Veja, aquele é o garoto
de que lhe falei”. Ele continuava sendo o líder, porém do contrário. Havia
deixado ser o líder que levava os colegas a fazer mil barbaridades e passado
a ser líder num outro sentido: aqui não se bebe, aqui não se fuma, aqui
se estuda. Penso que esta tenha sido a experiência mais forte que tive.
Porque as teorias que temos de educação não se baseiam na experiência
real. Há muitos livros de pedagogia que não servem para nada. Porque são
feitos pensando em uma pessoa feita em um gabinete.
P: Percebo que
você aposta, profundamente, na liberdade de seus alunos. Não terá a pretensão
de que todos façam o mesmo caminho?
R: Claro que não..., Temos que ter paciência com os garotos e com os professores
até que comecemos a ver os resultados. A educação... dá certo!
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79 da Revista ReConstruir.
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