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Entrevista
Ano
9 - nº 78 - 15 de novembro de 2009
Krishnamurti
e a educação espiritual do ser

Jiddu Krishnamurti
(Madanapalle, 11 de maio de 1895 - Ojai, 17 de fevereiro de 1986) foi
um filósofo e místico indiano. Entre seus temas estão incluídos revolução
psicológica, meditação, conhecimento, relações humanas, natureza da mente
e realização de mudanças positivas na sociedade global. Constantemente
ressaltou a necessidade de uma revolução na psique de cada ser humano
e enfatizou que tal revolução não poderia ser levada a cabo por nenhuma
entidade externa seja religiosa, política ou social.
Krishnamurti foi educado
pela Sociedade Teosófica, da qual depois se afastou, e é
considerado um instrutor espiritual, Mestre extraordinário e inteiramente
descomprometido de qualquer religião. Realizou palestras por todo
o mundo, tendo publicado inúmeros livros, sendo conhecido por defender
a educação espiritual do ser como caminho para renovação
das estruturas sociais humanas.
Que papel pode
a educação desempenhar na presente crise mundial?
Krishnamurti - Encarando tanto as causas quanto as conseqüências da guerra,
da atual crise social e moral, naturalmente começamos a perceber que a
função da educação é criar novos valores, não meramente implantar os valores
existentes na mente do aluno, que simplesmente o condiciona sem despertar
sua inteligência. Mas quando o próprio educador não enxergou as causas
do presente caos, corno pode ele criar novos valores, despertar a inteligência,
impedir as novas gerações de seguir os mesmos passos, que levam em última
instância a novos desastres? Seguramente é importante para o educador
não simplesmente implantar certos ideais e transmitir apenas informação,
mas empenhar todo o pensamento, todo o cuidado, toda a afeição para criar
o ambiente certo, a atmosfera certa, de maneira que quando a criança chegar
à maturidade seja capaz de lidar com qualquer problema humano que surja.
A educação só pode ser transformada educando o educador e não meramente
criando um novo padrão, um novo sistema de ação.
Os ideais têm lugar
na educação?
Krishnamurti - Certamente não. Os ideais e o idealista em educação impedem
a compreensão do presente. É um enorme problema tentar lidar com isto
em cinco ou dez minutos; é um problema sobre o qual nossa estrutura inteira
está baseada, isto é, temos ideais e educamos de acordo com estes ideais.
Não é verdade que os ideais impedem a correta educação que é a compreensão
da criança como ela é e não como deveria ser? Se quero entender uma criança
não devo ter um ideal do que ela deveria ser. Para compreendê-la devo
estudá-la como ela é. Colocá-la dentro da moldura de um ideal é meramente
força-la a seguir certo padrão, sirva-lhe ou não; e o resul tado é que
ela está sempre em contradição com o ideal ou então conforma-se tanto
com ele que deixa de ser um ser humano e age como um mero autômato sem
inteligência. Portanto, não é o ideal um verdadeiro obstáculo para a compreensão
da criança? Se você como pai realmente quer compreender seu filho você
olha para ele através do véu de um ideal? Ou simplesmente o estuda porque
tem amor no coração? Você o observa, observa seus humores, suas idiossincrasias.
Porque existe amor, você o estuda. É somente quando não existe amor que
há ideal. Observe-se e notará isto. Quando não há amor você tem estes
enormes exemplos e ideais, através dos quais você força, compele a criança.
Mas quando existe amor, você a estuda, observa e lhe dá a liberdade de
ser o que é; você a orienta e ajuda, não em direção ao ideal, não de acordo
com um certo padrão de ação, mas para fazê-la ser o que é.
É possível a educação
na criatividade? Ou é a criatividade puramente acidental e, portanto nada
pode ser feito para facilitar sua emergência?
Krishnamurti - Para formular de outra maneira a questão é se aprendendo
uma técnica você será criativo, isto é, aprendendo a técnica de pintar
você será um artista? A criatividade surge através da técnica ou a criatividade
é independente da técnica? Você pode ir a uma escola e aprender tudo o
que há para saber sobre pintura, sobre a profundidade da cor, a técnica
de como segurar o pincel e tudo mais. Isto fará de você um pintor criativo?
Ao passo que se você é criativo então tudo o que fizer terá a sua própria
técnica. Uma vez fui ver um grande artista em Paris que não tinha aprendido
uma técnica; ele desejava dizer algo e o dizia em argila, e também em
mármore. A maioria de nós aprende a técnica, mas tem muito pouco a dizer.
Negligenciamos, descuidamos a capacidade de descobrir por nós mesmos;
temos todos os instrumentos da descoberta, mas não descobrimos nada diretamente.
Assim, o problema é como ser criativo, o que engendra sua própria técnica.
Quem você chamaria
de professor perfeito?
Krishnamurti - Obviamente não o professor que tem um ideal, nem o que
está tendo lucro em ensinar, nem o que construiu uma organização, nem
o que é instrumento do político, nem o que está confinado a uma crença
ou a um país. O mestre perfeito, certamente, é aquele que não pede nada
para si mesmo, que não está preso na política, no poder, em posições,
não pede nada para si mesmo, que não es tá preso na política, no poder,
em posições, não pede nada para si mesmo porque interiormente é rico.
Sua sabedoria não está nos livros, sua sabedoria está no experimentar
e o experimentar não é possível se ele está buscando um fim. O experimentar
não é possível para quem o resultado é mais importante que os meios; para
aquele que quer mostrar que produziu muitos alunos que passaram brilhantemente
nos exames e obtiveram mestrados e bacharelados de 1ª classe ou o que
quer que seja. Obviamente como a maioria de nós quer um resultado, dedicamos
escassa atenção aos meios empregados e, portanto nunca podemos ser professores
perfeitos. Certamente o professor não é um simples distribuidor de informação;
o professor é alguém que aponta o caminho para a sabedoria. E aquele que
aponta o caminho para a sabedoria não é o guru. A verdade é muito mais
importante que o professor; portanto quem está em busca da verdade deve
ser simultaneamente estudante e professor. Em outras palavras você deve
ser o perfeito professor para criar uma nova sociedade e para engendrar
o perfeito professor você deve compreender a si mesmo. A sabedoria começa
com o autoconhecimento e sem autoconhecimento a mera informação leva à
destruição. Sem autoconhecimento o avião torna-se o mais destrutivo instrumento
da vida, mas com autoconhecimento é um meio de ajuda humana. Assim o professor
deve ser alguém que não está preso nas garras da sociedade, não joga o
jogo do poder dos políticos, não procura posição ou autoridade. Ele descobriu
em si mesmo aquilo que é eterno e por isso é capaz de compartilhar este
conhecimento que ajudará outro a descobrir seus próprios meios de iluminação.

Qual é a função
de um mestre?
Krishnamurti - Senhores, a nossa dificuldade, no mundo moderno, está em
desejarmos resultados imediatos, imediato sucesso. Não pensamos em longos
prazos, mas só em prazos curtos. Queremos que nossos filhos ou filhas
passem nos exames, para obterem empregos; só isso nos interessa. Eis porque
criamos uma estrutura educativa que torna necessária a existência do especialista.
Se optamos, porém, pelo prazo longo isto é, se percebemos a significação
da educação dos jovens - nesse caso, o mestre não é apenas o homem que
dá instrução na sua matéria, mas deve ser também um ente humano inteligente
e sem medo. O problema, pois, não se refere à multiplicidade de mestres,
senão à necessidade de mestres que tenham capacidade e inteligência para
se encarregarem de diferentes matérias. Afinal, isto não é muito difícil;
se um homem é suficientemente inteligente, pode ensinar não só Matemática,
mas também História. Mas, nem o mestre, nem o pai, nem a sociedade é inteligente.
Não amamos realmente os nossos filhos. Se os amássemos daríamos atenção
a muitas coisas - sua alimentação, a espécie de mestre e a espécie de
escola que lhes convém; e todos estaríamos muito interessados no problema
mais importante: qual a finalidade da educação, se os que estão sendo
educados estão destinados a viver de armas na mão, a tornar-se advogados,
policiais - fatores de destruição? São estes os que perpetuam as guerras.
Por conseguinte, educamos os nossos filhos para morrerem. Este problema,
pois, tem de ser atendido, mas não apenas compete dizer como fazê-lo,
como manter uma escola com poucos professores. O problema é vosso, como
pais, que sois, mas infelizmente não estais interessados nele. E assim
o professor, a entidade mal paga, desprezada, e a menos inteligente, é
que tem a mais grave responsabilidade, numa sociedade. Tudo isso já ouvistes
dizer antes; jamais porém, agistes a seu respeito, porque em verdade não
estais interessados nos vossos filhos, nem estais verdadeiramente interessados
no problema da liberdade para os vossos filhos. Assim sendo, enquanto
não assumirdes a responsabilidade, como pais, e enquanto não cuidardes
de pôr em prática estas coisas, nenhum governo as porá em prática para
vós, O governo só sabe condicionar os jovens, para torná-los mais e mais
eficientes, seja para movimentar as indústrias, seja para se alistarem
no exército. A questão, pois, não é de como se ter menos mestres numa
escola, mas, sim, de como fazer nascer em nossas relações uma inteligência
não limitada, não temerosa, mas realmente revolucionária, criadora.
Como educar o educador?
Krishnamurti - Através do mundo todo vem se tornando cada vez mais evidente
que o educador precisa se educar. Não se trata de educar a criança, mas
antes o educador porque ele precisa disso muito mais do que o estudante.
Afinal de contas, o estudante é como uma planta tenra que requer orientação,
ajuda; mas se o ajudante é ele próprio incapaz, estreito, intolerante,
nacionalístico e tudo mais, naturalmente o seu produto será o que ele
é. Assim, parece-me que a coisa mais importante não é tanto a técnica
do ensinar, mas a inteligência do próprio educador. Em todo o mundo, a
educação tem falhado, porque produziu as duas mais colossais e destruidoras
guerras da história. Desde que ela falhou, substituir meramente um sistema
por outro parece-me completamente fútil, mas se existe a possibilidade
de mudar o pensamento, o sentimento e a atitude do professor, então, talvez
possa haver uma nova cultura, uma nova civilização. Em meio a todo este
caos, miséria, confusão e luta, seguramente a responsabilidade do professor
- seja ele um empregado do governo, um instrutor religioso ou apenas um
professor de informação - é extraordinariamente grande. Assim, nosso problema
não é tanto a criança - o menino ou a menina - mas o professor, o educador.
E educar o educador é muito mais difícil do que educar a criança, porque
o educador já está conformado e fixado. Ele funciona dentro de uma rotina
porque não está realmente preocupado com o processo do pensamento, com
o cultivo da inteligência. Ele está somente fornecendo informação e o
homem que simplesmente dá informação quando o mundo todo está desabando
à sua volta seguramente não é um educador. É possível proporcionar o ambiente
certo, as ferramentas necessárias e tudo mais, porém o importante é o
educador descobrir o que significa toda esta existência. Porque vivemos,
lutamos, educamos, porque existem guerras, discórdia permanente entre
homem e homem? Estudar todo este problema e pôr nossa inteligência em
ação é seguramente a função de um verdadeiro mestre. O professor precisa
estar além dos limites da sociedade e de suas exigências para ser capaz
de criar uma nova cultura, uma nova estrutura, uma nova civilização.
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a leitura da Edição
78 da Revista ReConstruir.
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