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Entrevista
Ano
9 - nº 77 - 15 de outubro de 2009
Bernard
Charlot: As relações com o saber e a escola ideal

Bernard Charlot é
professor de Ciências da Educação na Universidade Paris VIII. Dedica-se
ao estudo das relações com o saber, principalmente a relação dos alunos
de classes populares com o saber escolar.
Durante suas pesquisas
sobre a relação dos jovens brasileiros com o saber, o que lhe chamou a
atenção na escola aqui no Brasil?
Bernard Charlot - Numa comparação com o meu país, a França, vejo que lá
a escola é uma instituição mais forte do que no Brasil, uma instituição
na qual o aluno tem o direito de pertencer para aprender coisas de que
ele goste ou não. Mas o que mais me chama a atenção no caso brasileiro
é a importância que é dada ao lado afetivo do saber. Existe aqui uma relação
muito forte entre o saber e o corpo: o saber deve ter efeitos emocionais
para ter valor. E isso acontece tanto na cabeça do aluno como na da professora.
Acho que por isso ela tem uma grande dificuldade em deixar de ser "tia".
Isso traz um problema: se a tia não gosta do aluno, ou se o aluno não
gosta da tia, ele não vai aprender.
Se o senhor fosse
professor numa classe de adolescentes brasileiros, qual seria a sua preocupação
hoje, na hora de planejar suas aulas?
Me preocuparia com a questão da auto-estima. O adolescente é frágil e
tem uma imagem frágil de si mesmo. O saber deve permitir que ele reforce
essa auto-imagem, ao invés de feri-la ainda mais como muitas vezes acontece.
Porque quando o saber é uma fonte de sofrimento pessoal psicológico na
sua auto-estima, você tende a desvalorizar esse saber que te desvaloriza.
O que é aprender,
segundo sua visão?
É algo que se manifesta de formas heterogêneas e que é bem mais amplo
do que adquirir um saber. É, por um lado, apropriar-se de um enunciado
que só tem existência através das palavras. Mas é também dominar determinadas
formas de se relacionar com os outros e consigo: a se apaixonar, a ter
ciúmes... Isso tudo se aprende, não é natural. O resultado da aprendizagem,
portanto, não precisa vir necessariamente na forma de um enunciado verbal.
Como saber se uma pessoa aprendeu a nadar? O resultado vem inscrito no
seu próprio corpo, na maneira como ela se movimenta na água. Essas formas
diferentes de aprender muitas vezes concorrem entre si no mundo do aluno.
O desafio da escola é fazer com que o que se aprende lá possa também permitir
ao adolescente se construir enquanto sujeito. Isso nem sempre acontece,
principalmente nos meios populares.
Por que alguns
alunos têm mais vontade de aprender do que outros?
Toda pessoa tem uma atividade intelectual, mas o fato de mobilizar ou
não essa potencialidade depende do sentido que ela confere àquilo que
está ouvindo e à situação que está vivenciando. Isso varia, em primeiro
lugar, com a história singular de cada aluno. Ou seja, os motivos que
despertam o desejo de aprender numa criança podem não ter nenhum efeito
sobre outra, que tem uma história pessoal diferente. Além disso, há uma
explicação de origem sociológica: sabe-se que há uma postura diferente
frente à escola entre as crianças de classes médias e de meios populares.
Não sabemos muito bem como a classe influencia, mas é inegável que ela
tenha um peso importante.
A classe social
é um fator determinante na aprendizagem?
Não há uma relação automática de causalidade. O que sabemos é que existe
uma correlação estatística entre a posição social do aluno e o sucesso
ou o fracasso escolar. Mas não devemos esquecer de que existem crianças
de meios populares que são bem sucedidas na escola. E crianças de classe
média que encontram dificuldade. Nas minhas pesquisas, venho tentando
descobrir por que o risco de mau êxito é maior entre alunos de classes
populares. E, além disso, por que alguns deles se dão bem, a despeito
das condições desfavoráveis. Essa segunda questão é muito importante,
porque pode nos dizer em que direção atuar para superar o fracasso escolar.
Como o professor
pode interferir na relação dos alunos com o saber, de modo a despertar
o desejo de aprender nos mais desmotivados?
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que o que vai determinar a aprendizagem
é a atividade intelectual do próprio aluno. O professor é importante,
mas pelo efeito que ele pode ter nessa atividade. Do mesmo modo, os aspectos
institucionais são importantes pelos seus efeitos sobre a prática do professor
e, por tabela, sobre a atividade intelectual do aluno. O professor deve
entender que a lógica do aluno, principalmente o de classe popular, é
muitas vezes diferente da lógica da escola. Nesta, é o estudante que vai
realizar uma atividade intelectual para adquirir saber. Na lógica do jovem,
é o professor quem vai ter esse trabalho. Seu papel é apenas sentar-se
na sala e aguardar que lhe passem esses conhecimentos. O professor tem
de mudar essa situação, construindo o aluno na criança, no adolescente.
Esse é um trabalho ao mesmo tempo terrível e apaixonante, que não sei
se é a "professora tia" que pode fazer. Acho que deveria ser a "professora
professora", a profissional.
Nessa tentativa
de motivar os alunos, alguns professores tentam mil coisas. Até que ponto
isso interfere na relação com o saber?
Ao invés de falar em motivação, prefiro falar em mobilização. Há uma diferença
importante entre essas duas palavras. Motiva-se alguém de fora, mas se
mobiliza de dentro. Muitas vezes, constrói-se com esse discurso de motivação
uma pedagogia muito artificial, em que o professor ensina a fazer um bolo
para dar aula de Matemática. Isso só terá algum efeito se o dispositivo
usado fizer algum sentido para o ensino. Mas normalmente não é isso que
acontece. Uma motivação externa em geral cria um sentido enviesado. O
que o aluno quer ao fazer um bolo? Quer comer o bolo. Ele não está nem
aí com a Matemática. Essas motivações de fora são muito artificiais. É
importante compreender que a mobilização é interna e supõe um desejo do
próprio aluno. Mobilizar é fazer uso de si, para si. E isso representa
uma diferença fundamental.
Como aproximar
o "aprender na escola" do "aprender na vida"?
Essas duas formas são diferentes, mas não deveria haver uma barreira tão
grande entre elas. O estudo da história de Portugal no século XIX, por
exemplo, deve fazer sentido para que o aluno entenda o que é a vida no
Brasil agora e o que está fazendo aqui. A escravidão, as batalhas, as
conquistas... Isso tudo deveria produzir uma reflexão para que os estudantes
entendessem melhor quem eles são. Dessa forma existirão pontes entre o
ensino acadêmico e o que se vive. E a aula ganhará muito mais sentido.
Como deveria ser
a escola ideal?
Aquela que questiona, que primeiro traz os questionamentos e só depois
o conhecimento. Que mobiliza a atividade intelectual e dá sentido aos
saberes. Que é respeitada como instituição. Que estimula a auto-estima,
a imagem que os alunos têm de si mesmos. Aquela, por fim, em que o saber
é também fonte de prazer - o que não significa que não há esforço, pois
o prazer mais importante para um indivíduo é se sentir inteligente.
Qual a sua opinião
sobre o sistema de ciclos?
O princípio da escola ciclada é mais justo do que o da seriada. O problema
é que pode haver contradições entre esse projeto político e as práticas
pedagógicas da sua implantação. Na França, temos há dez anos o sistema
de ciclos e quase ninguém percebeu a mudança. Por que isso acontece? Porque
muitas vezes o sistema de séries permanece camuflado nas escolas cicladas.
O que temos de pensar é em que práticas pedagógicas são necessárias para
concretizar efetivamente o projeto político dos ciclos.
E o que o senhor
pensa sobre a repetência?
A repetência é ruim, quanto a isso não tenho dúvidas. Mas também acho
que, na prática, um aluno que passa sem saber acaba atrapalhando a si
e aos colegas. Mais importante do que ficar discutindo sobre a repetência
é refletir sobre as práticas que permitem que todos os alunos sejam bem
sucedidos.
Como fazer um projeto
pedagógico?
Na base de um projeto pedagógico é preciso haver sempre uma escolha de
valores, uma representação do mundo, do ser humano e da sociedade. Definida
essa dimensão política, é preciso traduzi-la para a especificidade da
escola, para a esfera pedagógica. E aí é importante lembrar que a escola
não é só o seu projeto, mas também o que está fazendo na prática, os métodos
que são efetivamente utilizados, o que os alunos estão aprendendo... Proponho,
aos professores, que questionem seus atos pedagógicos. Por exemplo: devo
prosseguir a aula se 5 dos meus 25 alunos não estão entendendo? E quando
for apenas um? Essas escolhas não são apenas atos pedagógicos, há um significado
político por trás delas.
O que é preciso
para construir uma escola democrática?
Que cada profissional envolvido com a educação reflita sobre seus atos
políticos e pedagógicos. São as nossas contradições que devemos enfrentar
se quisermos construir uma escola verdadeiramente democrática.
Entrevista publicada
originalmente em www.cmariocovas.sp.gov.br.
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a leitura da Edição
77 da Revista ReConstruir.
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