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Entrevista
Ano
9 - nº 76 - 15 de setembro de 2009
A
escola precisa debater as influências da globalização

A trajetória de Carlos
Alberto Torres é bem apropriada para uma pessoa que investiga a globalização.
Argentino, ele fez doutorado em Stanford, nos Estados Unidos, e pós-doutorado
na Universidade de Alberta, no Canadá. Como professor convidado, trabalhou
em universidades de 15 países, incluindo o Brasil. A experiência forneceu-lhe
evidências para comprovar uma de suas teses recentes: a idéia de que poucos
fenômenos tiveram tanto impacto na vida do professor como a globalização.
Para ficar em um exemplo de sala de aula, ele lembra que hoje é preciso
disputar a atenção dos estudantes com a mídia, que muitas vezes veicula
informações que se chocam com o que diz a escola. Por isso, é essencial
encarar o novo panorama. Segundo Torres, mais do que transmitir saberes,
o professor deve orientar a comparação das imagens e dos valores dominantes
com a realidade local. Considerado um dos mais reconhecidos especialistas
na obra do educador brasileiro Paulo Freire, Torres hoje leciona na Universidade
da Califórnia, em Los Angeles.
De que maneira
a globalização entrou na sala de aula?
CARLOS ALBERTO TORRES De certa forma, ela sempre esteve presente. O professor
é talvez um dos primeiros internacionalizadores com quem temos contato
na vida. Quando você vai à escola, não estuda somente filósofos, artistas
e cientistas brasileiros: conhece profissionais do mundo inteiro. O docente
é, por definição, um grande internacionalizador. É bom que seja assim:
esse processo divulga a riqueza da civilização humana e impede que fiquemos
restritos apenas ao conhecimento do nosso espaço.
Mas a recente explosão
na circulação de informações, opiniões e valores pelos meios de comunicação
mudou esse quadro radicalmente, não?
TORRES Sim. É por isso que o atual processo de globalização precisa ser
debatido. Por meio dos constantes bombardeios da mídia, ele contribuiu
para a uniformização dos gostos e dos valores que supostamente se devem
buscar. O estrategista de negócios Kenichi Ohmae chama isso de ?californização?
do gosto, que se observa principalmente nos adolescentes. Em todo o mundo,
eles gostam da música rap, dos jeans Levi?s e dos mesmos tênis esportivos.
O impacto das
influências é grande, pois elas moldam a visão dos jovens sobre o mundo.
Como isso funciona
na prática?
TORRES Talvez uma conversa que tive com Paulo Freire seja um bom exemplo.
Quando São Paulo era muito mais violenta, ele me disse: ?Sabe, Carlos,
hoje um menino foi assaltado e morto por causa de um par de tênis Nike.
Essa valorização de bens cria um contexto de desejo em que as pessoas
fazem qualquer coisa para tê-los?. Ele estava falando do processo de veiculação
de valores que foi intensificado pela globalização.
Como o professor
deve trabalhar essas influências em sala de aula?
TORRES Primeiro, é importante que ele faça uma ref lexão sobre seus valores,
seus desejos e suas experiências. Em seguida, que estabeleça um diálogo
com meninos e meninas naquilo que eu chamo de ?dialética do local e do
global?. Trata-se de comparar imagens, influências e valores globalizados
com o contexto local, discutindo se são válidos ou não em cada realidade.
Quando estive na África, percebi que o ideal de beleza era diferente do
predominante na mídia mundial. As modelos eram gordinhas ? se você é gordo
num ambiente de pobreza, isso é sinal de sucesso. Significa que a beleza
anoréxica não se articula com a realidade local e não faz sentido persegui-la.
Voltando ao exemplo do tênis: devemos nos preocupar apenas em ganhar dinheiro
a todo custo para comprar mais? Simplesmente ignoramos os que não têm
recursos mínimos? É esse tipo de questionamento que o professor deve ter
e provocar.
Os professores
percebem que estão sujeitos a tanto impacto?
TORRES Aparentemente não. Coordeno uma pesquisa em 18 países que está
chegando a alguns resultados surpreendentes. A maioria dos professores
afirma que não se vê afetada pela globalização. Eles sempre falam como
se fosse uma coisa externa, que só atinge os outros. Fiquei impressionado
com essa descoberta.
Certos pesquisadores
apontam ainda que o novo panorama mundial modifica a relação da escola
com o conhecimento. Isso realmente ocorre?
TORRES Sim. Um dos grandes dilemas do momento é que a escola não pode
mais apenas reproduzir conhecimento, como fazia até pouco tempo atrás.
Agora a escola tem de ser um lugar de produção de conhecimento.
Qual é a participação
do educador em todo esse processo?
TORRES É fundamental. Primeiro, ele deve saber que o conhecimento é uma
construção coletiva, que nasce das interações na sala de aula. Segundo,
precisa ter competência técnica e possuir as ferramentas para fazer os
alunos avançar. Paulo Freire já falava do cuidado que essa atividade exige.
Afinal, o processo de conhecimento tem um aspecto diretivo, ou seja, precisa
ser orientado, conduzido. Parte-se sempre do saber dos alunos, que carrega
uma riqueza muito grande mas precisa ser reorganizado, decodificado, reconstruído
pelo contato com outros conhecimentos e outras ciências. É preciso ser
muito competente para fazer isso.
É pelo fato de
o professor fazer a ponte no diálogo entre o saber popular e o científico
que se defende a idéia de que ele deve agir como um tradutor?
TORRES Definitivamente sim. Ele tem de colaborar no processo de tradução
não apenas de conhecimentos, mas também de culturas e de identidades.
O multiculturalismo é uma característica que se intensificou com a globalização.
Também passam a surgir diversas identidades baseadas no universo de preferências
individuais ? uma menina pode ser homossexual, a outra, heterossexual,
um menino pode seguir uma determinada religião, e não outra... Essa complexidade
já aparece fortemente na sala de aula, e o professor precisa saber lidar
com ela. O que não é uma tarefa fácil: requer lucidez e compreensão das
diversas linguagens que tentam comunicar-se. Quem já trabalhou com tradução
simultânea sabe do que estou falando. É uma tarefa estafante. Para mim,
falar e pensar mais de 30 minutos em duas línguas é um excesso, uma violência
sobre meu corpo.
Esses são problemas
anteriores à escola que ultrapassam suas fronteiras. Como lidar com eles?
TORRES Atuando para fortalecer o diálogo, ajudando a estabelecer regras
de confronto e negociação, tentando mostrar como a vida democrática pode
acomodar uma diversidade de interesses, identidades e ideologias. A base
para essa ação são os direitos humanos, que deveriam estar no coração
de qualquer sistema de ensino. Na sala de aula, o trabalho de tradução
é essencial para honrar as tradições da Educação: expandir os horizontes
intelectuais e voltar a atenção para as dimensões cognitivas e morais
da vida. O objetivo é a criação de uma consciência coletiva intercultural
que promova o convívio entre as diferenças e seja capaz de combater duas
coisas que fazem muita falta ao mundo de hoje.
Quais são elas?
TORRES Eu as chamo de ?déficits?. O primeiro é o déficit moral, que ocorre
tanto entre as elites como entre os pobres. Na América Latina, ele está
institucionalizado na forma de corrupção, que recebe punições brandas:
há quem roube milhões do governo, passe um ou dois anos na cadeia e saia
impune. O outro é o déficit de solidariedade, materializado, por exemplo,
na sonegação de impostos. Quando as pessoas da classe média deixam de
pagar tributos, isso significa que elas perderam o sentido de solidariedade.
Se esses dois déficits persistirem, não haverá muitas opções para o futuro
de nossa civilização. A escola pode contribuir para diminuí-los, embora
a melhoria das condições da consciência só se manifeste quando melhoram
as condições materiais. Por isso, devemos nos preocupar também com a forma
com que são repartidos socialmente bens e serviços, lutando pela redistribuição
e pela igualdade.
Ao falar da influência
da globalização fora da sala de aula, uma de suas constatações é que há
um fenômeno mundial de avaliações regionais, nacionais e internacionais.
No Brasil, temos o Enem, o Enade, a Prova Brasil e outros. Qual é sua
opinião sobre esse tipo de exame?
TORRES Eles são baseados num critério homogêneo para medir a aprendizagem,
algo que em inglês se denomina one size feets all (?um tamanho serve para
todos?). Se fizermos uma comparação com a produção de sapatos, é mais
ou menos como imaginar que todos os 190 milhões de brasileiros calçam
42 e pronto. Em minha opinião, esses modelos de avaliação que pretendem
medir todos pelo mesmo parâmetro são um horror.
Mas há pontos positivos
nos testes...
TORRES Eles não avaliam o essencial. Não permitem descobrir competências
específicas de um aluno para direcionar melhor sua trajetória de aprendizagem.
Também não concordo com que uma avaliação nacional decida se ele tem ou
não bom nível quando chega à 8ª série. Veja o meu exemplo: fui um excelente
estudante universitário, mas medíocre na escola secundária. Só percebi
que tinha alguns talentos no fim desse período. Incentivado por um professor,
eu, que nunca tinha sido um aluno especial, me transformei no melhor estudante
de Economia da classe. Encontrei uma competência que eu não sabia possuir.
Isso demonstra que a descoberta do talento demora,e ele não pode ser medido
por um teste num ponto isolado no tempo.
Em sua opinião,
como seria a avaliação ideal na escola?
TORRES Antes de mais nada, quero dizer que não tenho dúvida de que é preciso
avaliar. O que discuto são os critérios de avaliação. Primeiro, acho que
esse tem de ser um processo que se estenda por um período relativamente
longo de tempo ? quatro anos, digamos. Depois, é preciso selecionar um
modelo. Um dos que mais aprecio é a análise de portfólio. Com essa coletânea
de redações e desenhos que contém as principais produções do aluno é possível
identificar competências específicas. Outra vantagem é que se cria uma
aproximação com cada estudante, pois o professor tem todo o histórico
da evolução diante de si. Um terceiro ponto positivo é que a avaliação
se torna coletiva, já que o portfólio passa de um professor para outro
conforme a criança vai avançando nos estudos. Atrelada à criação de avaliações
externas existe a tendência de remunerar os professores de acordo com
os resultados de seus alunos nesses testes.
O senhor concorda
com isso?
TORRES Não vejo problema em remunerar diferentemente profissionais responsáveis
pelo avanço consistente de estudantes em termos de aprendizagem e produtividade.
Mas insisto: é preciso considerar um período longo de tempo. Sou contra
dar essa remuneração a um professor porque seu aluno teve, vamos dizer,
99% de acertos num exame. Esse não é um bom critério.
Entrevista publicada
originalmente pela revista Nova Escola.
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