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Entrevista
Ano
8 - nº 74 - 15 de julho de 2009
Moral
e ética para crianças e jovens

Yves
de La Taille é especialista em Psicologia Moral e chefia o Laboratório
de Estudos do Desenvolvimento e da Aprendizagem do Instituto de Psicologia
da Universidade de São Paulo (USP)
Reproduzimos
abaixo entrevista concedida por Yves de La Taille ao Centro de Referência
em Educação Mario Covas (www.crmariocovas.sp.gov.br).
Os
mais diversos significados são atribuídos aos termos moral e ética. Qual
a definição que o senhor adota?
YT: Na definição que eu proponho, a moral situa-se no campo do dever e
refere-se à pergunta "como devo agir?", enquanto que a ética responde
à questão "que vida quero viver?". Essas duas coisas são complementares,
pois somos ao mesmo tempo submetidos às influências da dimensão da regra
e da busca da felicidade.
O
senhor poderia dar um exemplo do que seria uma conduta moral e uma conduta
ética?
YT: Gosto de citar uma passagem da biografia do escritor francês Albert
Camus. Ele conta que, quando pequeno, era um menino pobre que estudava
numa escola de meninos ricos. Certo dia, uma professora pediu que cada
estudante escrevesse sobre a profissão da mãe. Camus responde que a sua
era empregada doméstica, mas fica com muita vergonha. Logo em seguida,
sente vergonha de ter sentido vergonha. Na primeira vergonha há um valor
ético, que é acreditar que uma boa vida implica riqueza. No segundo momento,
há um valor moral, pois ele sabe que não deve ter vergonha da própria
mãe.
Podemos
dizer que existe hoje uma crise da moral?
YT: A sociedade capitalista em que vivemos assenta-se sobre uma base materialista,
e portanto acaba associando a felicidade à posse, deixando de lado os
valores mais transcendentes. É uma sociedade contraditória, que propaga
valores morais como "não roubar" e "não mentir" e, ao mesmo tempo, vende
a idéia de dinheiro, glória e consumo como objetivos a serem buscados
para uma vida feliz. Surge assim uma contradição entre a moral e as respostas
sobre a vida, em que a primeira é, na maioria das vezes, sacrificada.
A
educação está falhando na forma de lidar com esse processo?
YT: Apesar de educadores importantes (como Paulo Freire) pregarem o contrário,
a maioria das escolas foi virando as costas para a formação mais humanista
e crítica e se voltando para uma educação técnica e pragmática, guiada
pelo mercado. Eu diria, portanto, que a escola está falhando na sua função
crítica, de funcionar como um filtro às várias influências e valores que
são passados o tempo todo às crianças. Além disso, poucas escolas têm
um trabalho pedagógico específico e bem elaborado para a educação moral
como têm para a Matemática, para a Geografia... Ao contrário, quando se
trata de educação para valores cada professor está isolado. A escola não
está se organizando, não está levando a sério essa questão.
Pais
e professores vivem empurrando uns para os outros a responsabilidade quanto
à formação moral e ética das crianças. Qual a parte que cabe a cada um?
YT: Esse é um trabalho dos dois. A moral e a ética são valores culturais,
e a criança é aculturada na família, na escola, na mídia, na rua etc...
Tanto a escola quanto a família têm de deixar claros os seus valores e
definições do que é uma vida plena. Se não o fazem, acabam sendo substituídas
pela mídia, que exerce muito bem esse papel. Como já disse, hoje as respostas
éticas e morais são freqüentemente contraditórias. As crianças ficam perdidas
e isso evidentemente prejudica tanto o desenvolvimento moral quanto ético.
Cabe à escola e à família ajudá-los nesse processo.
E
a família e escola têm poder para isso? Mesmo diante de meios tão poderosos
como a TV, que impõe valores diariamente às crianças?
YT: A televisão é um meio poderoso, é verdade. Mas a família e a escola
também o são. O que falta é colocar de forma mais clara os seus valores,
as suas respostas éticas, as suas regras e os princípios que inspiram
essas regras. Com os PCN, a ética passou a ser um tema transversal que
deve ser abordado pelos professores das diversas disciplinas. Mas ensinar
valores é bem diferente do que ensinar Matemática ou Língua Portuguesa.
Na
sua opinião, os docentes estão capacitados para isso?
YT: A questão da formação dos docentes toma uma dimensão totalmente diferente
no campo da ética e da moral. No caso da Matemática, há o conteúdo e as
técnicas para ensinar esse conteúdo. O mesmo acontece com a História,
com a Língua Portuguesa, com a Educação Física. Com a moral e a ética
é diferente. Antigamente, determinadas pessoas eram reconhecidas como
porta-vozes legítimos da educação moral. O padre, por exemplo. Mas e hoje,
quem tem legitimidade para isso? Não há um especialista em moral e ética.
Logo, esse papel é exercido por todos os professores. Há muito pouco o
que se fazer com relação à formação técnica, para que eles exerçam bem
esse papel. Devem, talvez, estudar um pouco sobre o que a psicologia do
desenvolvimento tem a dizer sobre a criança. Saber, por exemplo, que uma
criança de oito anos não consegue assimilar princípios, apenas regras
concretas. O mais importante, porém, é saber trabalhar de forma em conjunto
com os colegas. Um professor tem pouca força quando trabalha isoladamente.
As políticas e estratégias devem ser discutidas coletivamente por toda
a equipe de docentes e direção.
O
senhor pode dar um exemplo de como seria esse trabalho em conjunto?
YT: Veja as campanhas que as escolas fazem contra o fumo. Quantas crianças
não voltam para casa e brigam com os pais para deixarem o cigarro? A escola
consegue influenciar a criança e a família sobre essa questão porque tem
uma campanha bem feita, complexa, onde todos se mobilizam. Se, da mesma
forma, ela se organizar para mostrar a importância de determinados valores,
também terá bons resultados. A escola tem mais força do que imagina.
Isso
significa que os valores só podem ser discutidos em grandes campanhas?
YT: Não, as campanhas funcionam quando se trata de um assunto que está
diariamente na mídia, como a paz atualmente. Mas o importante no trabalho
com valores é invadir a rotina escolar. A ética tem de estar presente
no recreio, na reunião de pais, ou mesmo na hora de lidar com um aluno
indisciplinado. Vamos imaginar um estudante que insiste em ficar conversando
durante a aula. Ao invés de colocá-lo para fora, o educador pode levá-lo
a refletir sobre a situação, fazê-lo se colocar no lugar do professor
para perceber como ele se sente desrespeitado. Nesse momento, a moral
e a ética estão sendo trabalhadas.
E
como avaliar os resultados desse trabalho?
YT: A ética não pode ser avaliada. O professor pode apresentar valores
que julga importantes, mas o aluno tem liberdade de decidir se os adota
ou não. A avaliação, portanto, só pode ser sobre a moral. E eu diria que
a melhor forma de avaliá-la é observar o comportamento da turma no dia-a-dia.
O fato de ela estar mais respeitosa, mais pacífica, é o melhor indicador
de que o trabalho está dando resultado.
Como
saber quais valores e respostas éticas devem ser trabalhados?
YT: Isso quem deve definir é a escola. Existem alguns valores, como solidariedade
e justiça, que estão na Constituição brasileira. Já as respostas éticas
são mais complicadas. A escola tem de escolher os seus valores, princípios
e regras e deixar isso bem claro para os pais. Ao criar, por exemplo,
uma regra para impedir o uso do celular, deve deixar claro que por trás
dessa decisão há um princípio, que é o de evitar interferências externas.
Essas coisas aparentemente banais pressupõem uma profunda reflexão sobre
valores morais e éticos. Com base nessa reflexão chega-se aos princípios
- que, por sua vez, definem as regras que serão adotadas.
É
importante o professor refletir mais, então?
YT: Sem dúvida. Para que a escola tenha sucesso na formação moral ela
precisa refletir mais sobre os valores que quer adotar. E isso deve começar
por uma reflexão pessoal de cada professor. Em geral, pessoas que têm
clareza sobre os seus próprios valores trabalham mais facilmente esse
tema.
....................................
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74 da Revista ReConstruir.
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