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Entrevista
Ano
8 - nº 73 - 15 de junho de 2009
Disciplina
é um conteúdo como qualquer outro

Ao longo
da carreira, Lino de Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade
de São Paulo, se especializou no construtivismo do suíço Jean Piaget (1896-1980),
na psicologia aplicada à educação e nos jogos infantis. Ele coordena um
laboratório de pesquisas e elaboração de atividades relacionadas às brincadeiras
e voltadas para a escola. Um assunto que ocupa particularmente sua atenção
são os estágios de desenvolvimento da criança e a importância de o professor
conhecer o que acontece em cada fase do crescimento.
Reproduzimos
abaixo entrevista concedida por Lino de Macedo em 2005, e publicada originalmente
na Revista Nova Escola.
É
possível ensinar disciplina?
Sim. Disciplina é uma competência escolar que as crianças aprendem como
qualquer conteúdo. Condição para realizar um trabalho com êxito, é uma
matéria interdisciplinar, porque dela dependem todas as outras.
A
disciplina vem de casa?
Para alguns educadores, sim. Quem considera a disciplina uma coisa que
se tem ou não se tem possui uma visão moralizante que transforma uma competência
numa questão de valor. Para eles, a disciplina depende da força de vontade
do aluno ou da determinação dos pais. Essa visão atribui culpa em caso
de indisciplina. De fato, na escola exclusiva, anterior à atual, selecionavam-se
os alunos e ficavam de fora aqueles que não se ajustavam ao comportamento
desejado. Nesse caso, disciplina era mesmo um pré-requisito para a escola.
Hoje, comportadas ou não, todas as crianças têm direito a estudar.
Qual
o principal erro da escola em relação à disciplina?
É pensar que existe um único tipo de disciplina e que ela só pode ser
imposta. Minha idéia é que disciplina é um trabalho de todos em sala de
aula. Constrói-se a melhor forma de acordo com a necessidade. Numa aula
tradicional, expositiva, enquanto o professor fala ou escreve no quadro-negro,
os alunos devem ficar quietos, prestar atenção e copiar. Acontece que
hoje temos muitas propostas pedagógicas. Cada cultura escolar e cada atividade
em sala de aula têm uma disciplina adequada a seu desenvolvimento. Dependendo
da situação, a melhor pode ser o silêncio, as crianças perguntando ou
conversando entre si.
É
possível ensinar disciplina pelo exemplo?
Sim. Um erro comum é achar que a falta de disciplina é sempre do outro.
Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. É verdade. Mas
nós, adultos, também não temos. Em uma sociedade como a nossa, um dia
se almoça de manhã, outro dia de tarde, outro dia enquanto se fala ao
celular. Nós é que não temos rotinas para organizar a vida das crianças.
Entendemos os motivos da nossa "indisciplina" porque sabemos que para
muitas pessoas a regularidade se tornou impossível. Mas,
se nós não somos disciplinados, por que esperamos um comportamento regular
das crianças, como se fosse uma coisa natural, espontânea, quase herdada?
Podemos conquistar o aluno para um projeto de disciplina conseguindo a
admiração dele. Em sua origem, a palavra disciplina tem a ver com discípulo.
Discípulo é uma pessoa que tem alguém como modelo e se entrega pelo valor
que atribui a essa pessoa. Com o tempo, perdeu-se o elemento de referência
que havia antigamente. Isso tem de ser novamente conquistado, pouco a
pouco, pelos dois lados.
A
disciplina que se aprende na escola serve para a vida toda?
A gente tem de pensar a disciplina ao mesmo tempo como fim e como meio.
É um fim porque podemos desenvolver atitudes como concentração, responsabilidade,
interesse. Essas coisas viram ferramentas pessoais e de trabalho. Disciplina
é também um meio, um instrumento sem o qual as coisas não acontecem ou
acontecem fora do prazo ou dos padrões.
A
disciplina ajuda a desenvolver a autonomia?
Disciplina é, cada vez mais, autodisciplina. Um exemplo é a lição de casa.
Hoje em dia a maioria das famílias não tem um adulto com tempo disponível
para fiscalizar o dever. A própria criança aprende a administrar essa
tarefa e, se necessário, ela pede socorro. A autonomia é uma conquista,
um aprendizado complexo e longo pelo qual as crianças desenvolvem a disciplina
para dar conta de suas tarefas.
O
que é ser uma pessoa disciplinada?
Ser disciplinado significa ter um comportamento subordinado a regras.
Mas o que é regra? Algo que se constrói por consentimento. É como em um
jogo. As regras são arbitrárias, mas a criança aceita porque gosta de
jogar. Sem regra, não há jogo. Para definir regras, usamos o recurso da
democracia. A classe toda discute, sob a condição de que todos aceitem
o que a maioria decidir. O problema é que a minoria pode se recusar a
cumprir. Deve-se combinar previamente que a não observação das regras
implicará punições ou perdas. Um dos motivos que nos levam a aderir à
disciplina são as conseqüências de não nos entregarmos a ela. Convencer
é diferente de impor.
Todas
as obrigações devem ser submetidas a discussão?
Não. Por exemplo: muitos pais perguntam aos filhos se eles querem comer.
Eu não acho que seja uma boa pergunta. Porque, se o filho disser que não
quer comer, como fica? A melhor pergunta é o que ele quer comer, dando
opções. Dar autonomia não significa abrir mão do seu papel de líder e
de responsável por certas coisas. Se você submeter tudo à opinião da maioria
das crianças, a curto prazo elas vão decidir pelo pior. Primeiro, tenta-se
convencer. O último recurso é impor. É errado tentar tratar como homogêneo
algo desigual como a relação adulto e criança ou a relação professor e
aluno.
As
crianças conseguem entender a importância da disciplina?
Em 1930 Piaget escreveu um livro importante, O Julgamento Moral da Criança,
e mostrou que mesmo as bem pequenas já têm valores como o gosto pelas
regras, pela disciplina, pelo fazer bem-feito e por se entregar a uma
tarefa coletiva. Só que o adulto não percebe. Piaget provou que é possível
ver isso usando o exemplo das brincadeiras. A própria garotada se auto-regula
e se submete a regras coletivas. Piaget analisou como o respeito entre
iguais promove o desenvolvimento da criança. Muitos pais e professores
sabem compartilhar com ela a necessidade de uma regra de forma que a criança
até reclama, mas aceita, entendendo que é o melhor.
Como
ensinar a disciplina na pré-escola?
Para alunos da Educação Infantil, digamos de 2 a 6 anos, a brincadeira,
a fantasia, as histórias são ótimas estratégias. A argumentação científica
não funciona com os pequenos. O recurso lúdico soa sincero para a criança,
porque é uma espécie de dramatização do assunto, uma elaboração simbólica
da questão. Nessa idade, outro recurso possível é simplesmente, com habilidade,
dar uma ordem e pedir que ela seja cumprida. Nesse caso, é preciso deixar
claro para a criança que há uma diferença entre ela e o adulto. Ela sabe
disso e até se sente aliviada.
Como
ensinar a disciplina no Ensino Fundamental?
A idade dos 7 aos 11 anos é interessante para trabalhar disciplina como
uma boa regra ou uma regra sem a qual certas coisas não se desenvolvem
bem. O convencimento se dá de forma empírica, com exemplos, discussão,
não mais como faz-de-conta. Uma coisa é o imaginário, outra é a própria
negociação da regra. O problema do convencimento no seu sentido adulto
é que ele supõe um pensamento hipotético-dedutivo ("se você não fizer
isso, acontece aquilo"). Mas crianças com menos de 12 anos não entendem
esse pensamento. É preciso trabalhar com elas a própria construção das
regras mais adequadas para uma determinada tarefa que se espera que realizem.
A
disciplina e a ordem podem prejudicar a criatividade?
Rigidez é uma coisa, rigor é outra. Os artistas, que trabalham com criação,
costumam ser super-rigorosos. Já rigidez é acreditar que uma coisa só
pode ser feita de um jeito, definido arbitrariamente. A disciplina está
do lado da criação, mas não é uma só. Alguns trabalham de dia, outros
à noite; alguns de um modo, outros de outro. A maior parte dos artistas
tem de cumprir prazos, se impõe tarefas. Se não houver disciplina, você
pára no meio, esquece. Acontece que muitas vezes nós, adultos, usamos
o discurso do rigor para defender nossa rigidez ou nossa incapacidade
de lidar com as situações.
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a leitura da Edição
73 da Revista ReConstruir.
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