|
|
Entrevista
Ano
8 - nº 72 - 15 de maio de 2009
A
educação e a busca pela paz

Francês,
nascido em 1924 e falecido em 2008, o professor Pierre Weil foi escritor,
educador e psicólogo formado pelas Universidades de Genebra, Universidade
de Lyon e Doutor em Psicologia pela Universidade de Paris. Possui mais
de trinta obras publicadas, entre elas: “O Corpo Fala” (Ed. Vozes), “O
Potencial da Inteligência do Brasileiro” (CEPA), “O Novo Vocabulário Holístico
- Espaço e Tempo” (CEPA Dist. Vozes), e “A Arte de Viver em Paz” (Ed.
Gente -Copyright UNESCO), além de mais de cinqüenta artigos em inglês,
espanhol, português e francês.
Membro
fundador da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada e presidente
da Sociedade Mineira de Psicologia, o professor dedicou-se ao trabalho
na Unipaz, união da Universidade Holística Internacional com a Fundação
Cidade da Paz. Criada em 1987, por Pierre Weil, o objetivo primeiro da
UNIPAZ é desenvolver uma ação educacional disseminando a visão holística
e uma cultura de paz, o que lhe rendeu o prêmio UNESCO de Educação para
paz em 2002, e a apresentação para o prêmio Nobel da Paz em 2003.
Reproduzimos
abaixo entrevista concedida por Pierre Weil em 2007, e publicada originalmente
na Revista Estação Científica.
Como
começou essa preocupação e o envolvimento do senhor com as questões que
abrangem a violência e a busca pela paz?
Pierre Weil: A preocupação começou muito cedo. Em minha
família havia três religiões em conflito: católica, protestante e judia,
cada uma delas falava mal dos outras. Com oito anos, reuni meus amiguinhos
e disse: “Vamos fundar a Associação dos Católicos- Protestantes-Judeus
em Favor dos Princípios Budistas.” Além disso, nasci em uma região de
muitas guerras, a Alsácia. Então, quem ganhava a guerra ficava com as
terras sem perguntar nada a quem morava ali. Meu avô nasceu alemão e se
tornou francês, meu pai nasceu francês e “ficou” alemão e eu nasci francês.
Quando Hitler invadiu a França, eu tinha dezoito anos e me tornei um guerrilheiro.
Pediram-me para pegar em armas, para que escolhesse uma metralhadora que
estava no chão e eu recusei. Uma voz dentro de mim dizia: ”Eu não quero
matar”. E entrei para a Cruz Vermelha como enfermeiro. Em plena guerra,
eu estava andando por trilhos enquanto meus companheiros explodiam a ponte
por onde o trem nazista passaria e fiquei devaneando, pensando em meu
futuro como educador em uma instituição a serviço da paz com os métodos
mais modernos que existem a serviço da paz. Foi aí que essa idéia foi
germinando. Foi aí que começou o envolvimento...
E
o método educacional voltado para a paz surgiu quando?
Pierre Weil: O método começou a nascer quando eu retornei
de um retiro com mestres tibetanos, e o governador do Distrito Federal,
José Aparecido de Oliveira, me convidou para ser presidente de uma Fundação,
A Cidade da Paz. Foi então que começou a ser desenvolvida uma técnica
pedagógica voltada para a paz.
E
em que se constitui este método?
Pierre Weil: É um método ativo em que as pessoas experimentam
a paz consigo mesmas, com os outros e a paz com a natureza. São três partes
que se subdividem em outras três partes: a paz do corpo, a paz do coração
e a paz do espírito.
Como
o Senhor encara a realidade brasileira nesse diálogo pela paz?
Pierre Weil: Eu acho que é um problema difícil de se resolver,
pois é um problema importado. A violência não é brasileira. O tráfico
internacional de drogas que passa pelo país está aliado ao tráfico de
armas e ao crime organizado e isto é um conjunto difícil de se dissolver.
Esta é uma questão, em parte, criada pela própria lei. A lei que proíbe
a droga criou uma delinqüência artificial. Já pensou se o governo proíbe
a cachaça no Brasil? Quantos delinqüentes a gente criaria?
E
o Governo? Como o senhor percebe a participação dele na educação para
a paz?
Pierre Weil: Ele está começando a se despertar. Depois de
termos vinte anos de experiência e depois dos últimos acontecimentos,
o Governo começa a ver que a educação para a paz faz bem para o país.
Mas ainda não é um fato consumado, não.
E
como o Senhor percebe a situação dos indivíduos nesse processo de formação?
Nós brasileiros estamos amadurecendo nossa consciência de paz?
Pierre Weil: Eu acho que o brasileiro não precisa amadurecer,
ele já está amadurecido. O Brasil possui uma cultura de paz. A França
é uma cultura de guerra, a Alemanha é uma cultura de guerra. Na França,
por exemplo, as grandes avenidas de Paris possuem nomes de batalhas, de
generais ou datas de vitórias. No Rio, as ruas possuem nome de administradores,
ou políticos. Na Pampulha, em Belo Horizonte, as ruas têm nomes de árvores,
de flores. O Brasil é a terra do abraço, do mutirão, coisas que não existem
em outros lugares.
A
miscigenação existente no Brasil contribui para isso, em sua opinião?
Pierre Weil: Sem dúvida. Este é um exemplo de convivência
entre etnias, entre raças para o mundo todo.
A
Declaração de Veneza de 1986, disponível no seu site, propõe um novo e
enriquecedor intercâmbio entre a ciência e as diferentes tradições do
mundo e diz ser este um caminho para a abertura de portas para uma nova
visão da humanidade. Essa nova perspectiva seria uma nova visão menos
racionalista, transdisciplinar. E, para o senhor, nós já alcançamos essa
visão ou ainda é uma excelente idéia que não se tornou realidade?
Pierre Weil: Já acontecem congressos transdisciplinares,
mas ainda são muito isolados, as universidades ainda são muito fechadas
para isso. E essa é uma das formas de violência.
Hoje,
quais são as dificuldades que pontuaria enfrentadas por essa ação pacifista
defendida pelo senhor?
Pierre Weil: A fragmentação multidisciplinar, pois ela cria
fronteiras artificiais.
A
relação de poder também está presente nesta segmentação multidisciplinar?
Pierre Weil: Nesse caso, entra a questão do ego e da ilusão
de fragmentação do sujeito-objeto. Nessa fragmentação sujeito-objeto é
que surge o apego a todos os objetos que nos dão prazer e que julgamos
separados de nós, sejam coisas ou pessoas. É aí que surge o grande problema:
o apego.
O
senhor já teve oportunidade de dialogar em vários países, como no Oriente
Médio e no continente africano. Como é a preocupação com a paz nesses
países?
Pierre Weil: Primeiramente, o ser humano é o mesmo. Não
existe apego africano ou europeu. É fácil, em países como o Brasil, discutir
questões de paz porque a receptividade é muito maior, pois aqui há uma
cultura de paz, uma cultura aberta. Há uma resistência muito grande na
Europa e nos Estados Unidos. Não que haja pessoas contrárias à paz, mas
a mudança necessária de visão de mundo e hábitos diários é tão grande
que constitui um obstáculo. Enfim, é necessário muito esforço. A educação
para a paz implica na educação do educador. Esse é o grande obstáculo.
Em
seu livro, "Ondas à Procura do Mar", logo no início em que se fala de
sua biografia, está escrito que o senhor "busca responder perguntas fundamentais
de origem existencial" como: quem somos nós? Para o senhor, quem somos?
Pierre Weil: Nós somos seres vivos chamados seres humanos
que são uma das categorias dos seres vivos. Existem seres vivos que vivem
dentro de corpos físicos como nós, existem seres extraterrestres que vivem
em corpos físicos um pouco diferente dos nossos e existem seres vivos
que vivem fora dos corpos físicos, em corpos de luz. É toda uma hierarquia
existente no universo em que vivemos em que são perceptíveis as diferentes
missões. A ação do ser humano, eu acho, é a de fazer essa conexão entre
a matéria e o espírito.
....................................
Continue
a leitura da Edição
72 da Revista ReConstruir.
|
IBEM
Conheça a educação moral e a cultura
da paz.
www.educacaomoral.org.br
Interior
da Alma
Livros sobre educação, espiritualismo, auto-ajuda.
www.interiordaalma.com.br
Análise
e Crítica
Blog de Marcus De Mario
sobre assuntos atuais.
http://analiseecritica.blogspot.com
|