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Entrevista
Ano
8 - nº 71 - 15 de abril de 2009
Escola
boa é aquela em que todos aprendem

Em junho
de 2005 a revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita,
publicou entrevista com a educadora Guiomar Namo de Mello, autora do documento
Os Dez Maiores Problemas da Educação Básica no Brasil
(e Suas Possíveis Soluções),
que deu origem a vários programas sobre educação
produzidos pelo Canal Futura.
Pela
atualidade do assunto e seriedade da abordagem, ReConstruir reproduz para
seus leitores parte dessa entrevista*, convidando a todos para uma reflexão
crítica necessária.
Quais
são os grandes problemas da educação brasileira?
Fomos buscar nas causas estruturais e históricas os obstáculos que impedem
nossos alunos de aprender. Temos de começar falando de uma cultura escolar
elitista, herança do tempo do Império, e da falta de visão estratégica
por parte do governo. Junte-se a isso uma gestão pública ineficiente,
em que por mais de um século o governo federal não se articulou com estados
e municípios para implementar as políticas e os legislativos, em geral,
não exerceram seu papel fiscalizador. A sociedade, por sua vez, em grande
parte por causa do aligeiramento com que a mídia trata a questão, é mal
informada e tende a confundir aparência com essência. Temos ainda os interesses
corporativistas, a estrutura precária de formação do educador, o mito
das "causas nobres" como o Ensino Fundamental de nove anos e a educação
em tempo integral que às vezes aparecem como possíveis soluções. A qualidade
ainda é confundida com um ensino de elite, o que só colabora para a nossa
educação ficar fora de sintonia com o século 21.
O
que é uma escola de qualidade?
É aquela na qual todos entram e todos aprendem. Escolhemos justamente
esse tema para abrir a série na televisão porque ainda hoje se acredita
que escola boa é a aquela que "puxa" e reprova, uma escola de minoria,
na qual o processo de adquirir informação é mais importante do que o de
constituir sentidos. No tempo em que a escola era de poucos, as crianças
que a freqüentavam construíam significados em outros lugares. Elas pertenciam
a famílias escolarizadas e dominavam as chaves para formar os conhecimentos.
A escola pública foi programada para esse tipo de aluno. Quando começou
a receber quem não tinha essa bagagem, ela entrou em crise. Apesar do
empenho e da dedicação de muitos professores, os grandes números indicam
infelizmente que a escola pública brasileira foi desenhada para quem já
sabe, não para quem não sabe e precisa dela para aprender.
Qual
é a chave que facilita a construção de conhecimentos?
É basicamente a linguagem. A mãe educada desde muito cedo mantém com o
filho uma conversa articulada segundo o código culto da linguagem. A família
mora em uma casa com livros, onde o jornal chega diariamente. Tudo isso
é fundamental no desenvolvimento lingüístico. Os alunos que entraram na
escola pública durante a expansão ocorrida nas duas últimas décadas do
século passado vêm de outro universo simbólico, de outro tipo de socialização
primária. O grande desafio da escola tem sido trabalhar com eles. Então
se diz que são as crianças que têm problemas, quando o problema de fato
é a escola que não sabe ensiná-las. É preciso saber ensinar a todos, partindo
de pontos diversos. Isso é o significado mais nobre do termo "respeito
à diversidade".
Como
deveria ser o ensino do professor para atender a diversidade?
Teria de ser uma formação que preparasse o professor para dar respostas
diferentes, dependendo da realidade da criança e de suas necessidades.
Ele precisa saber fazer a transposição didática dos conhecimentos universais
que serão ensinados em sala de aula, transformando-os em conhecimentos
significativos para os alunos, quaisquer que sejam suas origens e condições
socioeconômicas. Enquanto a escola era de minoria, o professor enfrentava
melhor as situações, já que a demanda era mais homogênea. Hoje a formação
é absolutamente insuficiente para dar ao professor um repertório diversificado
de recursos e de metodologias que ele possa dominar, adaptar e improvisar,
para serem utilizados com diferentes crianças, em diferentes momentos.
Como
deveria ser o currículo para formar professores competentes?
Ninguém ensina o que não aprendeu. Por isso o curso de formação precisa
dar peso grande ao conteúdo que vai ser ensinado. O problema não é novo.
O professor de 1ª a 4ª série era formado apenas no normal de nível médio.
Ao se perceber que a formação desse professor estava deficitária, decidiu-se
exigir dele curso superior. Mas onde encaixar o professor polivalente
em uma universidade que é organizada por disciplinas, por departamentos?
Por exclusão, essa formação foi atribuída aos cursos de pedagogia. Mas
nesses cursos não existem estudos dos conteúdos a serem ensinados. Lá
se aprende História e Psicologia da Educação, Planejamento Educacional,
mas não os níveis mais elevados da Matemática, a Língua Portuguesa ou
as Ciências que as crianças precisam aprender.
O
professor de 5ª a 8ª série é melhor preparado do que o de 1ª a 4ª por
dominar os conteúdos especializados?
Também não. Esse professor fez o Ensino Médio que provavelmente não foi
o magistério e decidiu fazer faculdade de matemática, por exemplo. Lá
ele aprendeu muito bem cálculo diferencial e outras coisas complicadas.
Mesmo freqüentando algumas disciplinas na faculdade de educação, para
obter a licenciatura, ele continuou sem aprender o que precisa saber para
ensinar matemática para a garotada de 12 anos que mora na periferia de
grandes cidades ou em áreas rurais.
Qual
é a saída para a formação do professor?
Ter uma instituição de ensino superior dedicada exclusivamente à formação
de professores, os Institutos Superiores de Educação (ISEs), velho sonho
de Darcy Ribeiro, que foram criados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Essas instituições não devem ter as fragmentações disciplinares
que ocorrem na universidade. São obrigatoriamente multidisciplinares.
Mas só isso não basta. É indispensável municiar o professor com orientações
didáticas para o trabalho em sala de aula, que sugiram planos e seqüências
didáticas, que apontem boas práticas e exemplifiquem com a experiência
de quem já fez e deu certo. Esse processo é parte importante da educação
continuada e deveria ocorrer cotidianamente, no chão da sala de aula.
Como
garantir que a capacitação inicial dos educadores seja eficaz?
Além de ser feita nos ISEs, essa formação precisa estar acoplada a um
sistema de certificação. Exames desse tipo deveriam ser exigidos para
entrar e progredir na carreira, com bolsas de auxílio para aperfeiçoamento
dos que não conseguissem desempenho satisfatório ou estímulo salarial
para os que fossem bem-sucedidos nesses exames. Por outro lado, deveria
haver apoio financeiro aos alunos que fazem cursos de magistério: o governo
pagaria os cursos para quem precisasse fazê-los em escolas privadas que
comprovassem a sua qualidade. Hoje os alunos, em geral mais pobres, pagam
o curso de formação superior e os sistemas públicos de ensino os empregam
mesmo que a formação tenha sido de má qualidade. Um sistema do tipo ISO
9000 deveria ser instituído para as escolas privadas. As que fossem certificadas
seriam habilitadas a receber alunos subsidiados pelo governo. Aqueles
que quisessem cursar escolas ruins o fariam por sua conta e risco.
Um
dos problemas é a cultura escolar elitista. Como superar isso?
Essa mania de pensar na escola como preparatória para a próxima etapa
é uma tradição claramente elitista. A criança da 2ª série é tratada como
se estivesse lá para passar para a 3ª. A que está na 5ª, para chegar à
8a e tirar o diploma do Ensino Fundamental. Ela entra no Ensino Médio
para se preparar para o vestibular. E quando chega à faculdade é que o
sistema vai procurar ensinar conhecimentos relacionados à realidade. Mas
e aqueles que não conseguiram chegar ao Ensino Superior? Para mudar uma
cultura é preciso que a escola se pergunte todos os dias se o que está
ensinando está sendo aprendido e pode ser relevante para a vida do aluno
no presente e no futuro.
O
corporativismo sindical é um entrave para a melhoria da educação?
Não se trata somente do corporativismo dos professores, que em muitos
casos lutaram por condições de trabalho e se esqueceram da questão educacional.
Tem também o interesse do setor público e do setor privado no Ensino Superior,
em que o primeiro se mantém pequeno e de "excelência", mas abre o mercado
para o outro explorar; tem o lobby das construtoras, que por muito tempo
foi auxiliado pela idéia de que política educacional era construção de
escolas; tem o conservadorismo das editoras de livros didáticos, pouco
permeáveis a inovações nessa área. O problema é: quem é que faz o lobby
da criança? Este é um papel do poder público: enfrentar os corporativismos
na defesa dos interesses dos alunos. Mas sozinho o poder público não vai
ser capaz. É preciso que a sociedade saiba diferenciar o essencial do
acessório, participar, fiscalizar e exigir uma educação de melhor qualidade
e dar sustentação às políticas de melhoria da qualidade, mesmo que elas
sejam impopulares dentro do setor educacional.
Qual
o papel do diretor e do coordenador pedagógico na construção desse ensino
de qualidade?
O diretor, principalmente, é fundamental. Ele é líder de um projeto comum
da escola e precisa apoiar a equipe para ter clareza dos objetivos, incorporando
a participação da comunidade. Cada escola precisa ter uma comunidade organizada
atrás dela para preservar seu trabalho e para apontar as falhas. Mas sem
cair na síndrome da participação, na qual tudo deve ser resolvido pela
gestão democrática. Tem coisas que a escola tem obrigação de saber. Ela
não pode consultar a população, por exemplo, sobre material de alfabetização
mais adequado, até porque os pais confiaram a ela essa responsabilidade.
Qual
é o limite da participação dos pais na gestão da escola?
É uma questão de bom senso, confiança e projeto comum. Os pais precisam
estar cientes de todos os problemas e sempre que possível contribuir para
as discussões das soluções que serão implementadas. É preciso que exista
uma relação de confiança entre a escola e os pais, para que estes se sintam
seguros quanto ao acerto de decisões estritamente técnicas. Estas, por
sua vez devem ser apresentadas a eles em termos simples, sem "pedagogês".
Os pais não precisam e na maioria das vezes nem querem ter ingerência
em decisões estritamente técnicas, mas com certeza eles as apoiarão se
forem parte de um projeto comum, de cuja construção eles foram protagonistas.
Por
que ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos e o período
integral não são bons caminhos possíveis para a melhoria da educação no
Brasil?
Não adianta manter as crianças por mais tempo na escola se o que ela oferece
continuar a não ter qualidade. Sem contar a Educação Infantil, o Ensino
Fundamental e o Médio somam juntos 11 anos. É preciso indagar: o que fazer
para todos permanecerem no sistema de ensino esses anos e conseguir ter
aprendizagens significativas? Adianta prolongar em um ano a permanência
na escola se o dinheiro, por exemplo para pagar os professores, continuar
o mesmo, assim como os recursos didáticos que são usados em sala de aula?
Essas são as ditas "causas nobres" que não resolvem os problemas e ainda
contribuem para desviar a atenção das questões que realmente importam.
*A íntegra
da entrevista pode ser lida em http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/planejamento-e-financiamento/escola-boa-aquela-todos-aprendem-426035.shtml
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71 da Revista ReConstruir.
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