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Entrevista

Ano 8 - nº 70 - 15 de março de 2009

Ouvindo Paulo Freire

Paulo Freire dedicou-se a diferentes experiências no campo da educação: alfabetização de jovens e adultos, formação de professores. De mesmo de modo, são muitos os temas destas áreas que ele toma como um desafio, visando desvendar as questões da formação do leitor, da autonomia, da liberdade, da pedagogia da esperança, da pedagogia do oprimido.

Paulo Freire (1921-1997) é autor de muitas obras. Entre elas: Educação como prática da liberdade (1967), Pedagogia do oprimido (1968), Cartas à Guiné-Bissau (1975), Pedagogia da esperança (1992), À sombra desta mangueira (1995) e muitos outros livros.

ReConstruir compilou algumas perguntas realizadas por diversos enrevistadores em épocas diferentes.

"Tudo o que a gente puder fazer, no sentido de abrir mais a escola, no sentido de provocar, pedir, desafiar estudantes, merendeiras, zeladores, vigias, diretores de escola, coordenadores pedagógicos, pais, médicos, dentistas, alunos, vizinhos da escola, tudo o que a gente puder fazer para convocar os que vivem em torno da escola e dentro da escola, no sentido de participarem, de tomarem um pouco o destino da escola na mão, também. Tudo o que a gente puder fazer nesse sentido é pouco ainda, considerando o trabalho imenso que se põe diante de nós, que é o de assumir esse país democraticamente, que é o de ter voz, o de ganhar voz e não apenas o de falar, não apenas o de dar bom-dia. Ora, o conselho de escola é um dos momentos, é um dos meios de que a gente pode se servir, se é que eu posso usar esse verbo, nessa luta pela democratização da escola e pela democratização do ensino no Brasil".

Pergunta - O que é a escola cidadã?
Paulo Freire - Olha, a escola cidadã, no meu entender, é aquela que se assume enquanto um centro, um centro de direitos e um centro de deveres, a formação que se dá dentro do espaço e do tempo que caracterizam a escola cidadã é uma formação para a cidadania. Quer dizer, a escola cidadã é, então, a escola que viabiliza a cidadania de quem está nela e de quem vem a ela. Porque a escola cidadã não pode ser uma escola cidadã em si e para si. Ela é cidadã na medida mesmo, também, em que ela briga pela cidadania, pelo exercício e pela fabricação da cidadania de quem vem para ela, de quem usa o seu espaço. Por exemplo, seria um absurdo que se pensasse na existência de uma escola em que um professor perguntasse ao aluno rebelde se o aluno sabe com quem está falando. Você veja, seria uma contradição enorme que uma escola, se pensando uma escola cidadã, coagisse, veja bem, eu digo coagisse, e não disse limitar-se, mas eu digo restringisse a liberdade do educando em lugar de sugerir ao educando, em lugar de sugerir ao educando que a sua liberdade precisa ser limitada para poder ser. Então a escola cidadã é uma escola coerente com a liberdade, é coerente com o seu discurso formador, com o seu discurso libertador, em outras palavras, a escola cidadã é aquela que, brigando para ser ela mesma, viabiliza ou luta para que os educandos e educadores também sejam eles mesmos. E como ninguém pode ser só, a escola cidadã é uma escola de comunidade. É uma escola de companheirismo, é uma escola de produção comum do saber e da liberdade. Mas é uma escola que não pode ser jamais licenciosa, nem jamais autoritária. Quer dizer, é uma escola que vive a experiência tensa da democracia que, em outras palavras, implica a experiência tensa, contraditória, permanente entre autoridade e liberdade. Uma escola cidadã seria a seguinte: é a escola que procura plenamente viver a sua autonomia de ser. Só é escola cidadã na medida em que, optando pelo exercício da cidadania, briga para constituir-se num espaço/tempo formador de cidadania.

Pergunta - A partir do momento em que se coloca ao educador a quase missão de descobrir os veios da ansiedade popular, cria-se na dinâmica educador-educando (ou, professor-aluno) uma relação de poder, já que existe alguém que sabe mais e outro alguém que sabe menos. Pode ou deve ser quebrada essa relação de poder?
Paulo Freire - A gente deve partir da seguinte afirmação: o educador é diferente do educando. Até mesmo do ponto de vista da sua chegada ao mundo. Em geral, eles pertencem a gerações diferentes. Essa diferença de tempo e de chegada tem de ver com o saber de experiência feito e com o saber sistematizado, que se supõe que seja adquirido na Universidade, na prática, na escolarização. Então, evidentemente, a própria estrutura da organização da escola dá ao educador um conjunto de responsabilidade e deveres diferentes das responsabilidades e deveres do educando. Dizer que o educador é igual ao educando ê, na melhor das hipóteses, demagogia. O problema que eu me coloco agora é: até que ponto essa diferença pode e deve constituir-se numa diferença de opostos sem que isso, porém, signifique que eu esteja pretendendo fazer uma análise de classes entre o educador e o educando. O que eu quero dizer com isso é que eu sou diferente dos educandos, mas eu não sou proprietário deles. Mas, a partir dessa diferença, eu tenho uma autoridade indiscutível diante da liberdade dos educandos, o que gera uma relação tensa. Essa diferença se alia a uma opção política, não só pedagógica. É uma opção em favor das classes sociais oprimidas, para a transformação radical da sociedade, no sentido de inventá-la de novo a fazê-la uma sociedade menos injusta. Se essa é a minha opção, eu não posso permitir que, na relação diferente entre mim e o educando, eu transforme a minha autoridade em autoritarismo e castre a curiosidade do educando, em nome da sua formação.

Pergunta - Como transformar expectativas e responsabilidade que se acham contidas em todo o tipo de prática pedagógica?
Paulo Freire - A prática pedagógica joga, permanentemente, com expectativa e responsabilidade. Toda prática pedagógica, não pode escapar às relações, nos sujeitos da prática, as relações mútuas de responsabilidade e expectativa. Professores de um lado, alunos de outro - como quer você que você chame, educadores e educandos, experimentam na sua prática pedagógica a responsabilidade de cada um em face da expectativa de cada um. Toda prática educativa joga com a expectativa do docente e a responsabilidade do docente, a expectativa por exemplo que o docente tem, é a de que ele docente ou ela, trabalhe o conteúdo que ele tem que ensinar de forma lúcida, de forma clara, competente cientificamente, e ele espera fazer essas coisas, se ele não espera, está errado.

Pergunta - Escola pública, escola pública popular. Qual a diferença fundamental entre elas?
Paulo Freire - Nós quando trabalhávamos na prefeitura, nos inclinamos para esse atributo de escola publica popular, exatamente para caracterizar esse sonho democrático, quer dizer o que a gente quer não é que a escolar pública discrimine nem rico, nem pobre. A posição da gente nunca foi de dizer: de agora em diante a gente vai inverter os papéis, quer dizer, vamos tratar muito mal as escolas das zonas boas, boas do ponto de vista financeiro, e vamos cuidar muito bem das escolas periféricas e destratar as escolas dos bairros que vivem felizes. Não, o que a gente queria era fazer uma escola popular, uma escola que ultrapassasse os preconceitos de classe, de raça, de religião. E que fosse generalizada, quer dizer, a mesma escola que você encontraria no Jardins, você encontraria na periferia. Apenas com a mudança de approach, a mudança de visão da própria temática que devesse ser discutida. No fundo, é uma escola democrática, anti- autoritarismo, uma escola participante, participativa que respeitava a opinião, que via os componentes da escola como engajados numa prática docente e uma prática pedagógica também. Era a escola que a gente sonhava.

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Continue a leitura da Edição 70 da Revista ReConstruir.

 

 

 

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