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Entrevista
Ano
8 - nº 69 - 15 de janeiro de 2009
Rubem
Alves: a tarefa mágica de ensinar

Rubem
Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da UNICAMP.
Autor
de diversos livros, é conhecido pelas suas opiniões, pelo
seu estilo poético e cativante, fazendo pensar.
A entrevista
abaixo foi publicada originalmente na seção "Fala Mestre" da revista Nova
Escola de Maio de 2002, e foi realizada por Ricardo Prado, de Campinas.
Pergunta
- Nós vivemos uma época de muita violência, com atentados e guerra lá
fora e assassinatos e seqüestros aqui no país. Como o professor pode trabalhar
essa questão?
Rubem Alves - Nossos professores são de matérias e a violência
não faz parte de nenhum currículo; então, ele diz: "Isso não está no programa
e nós precisamos cumpri-lo". Essa é uma das aberrações do nosso sistema
educacional. Tudo vai depender da sensibilidade do profissional, de sua
capacidade de pensar outras coisas que não sejam os conteúdos. Se ele
for extremamente competente só na sua disciplina, será incapaz de responder
às questões provocadas pela onda de violência. A grande pergunta é a seguinte:
nós estamos formando educadores com competência para lidar com situações
não previstas? Conhecer o programa é fácil; complicado é conhecer a vida.
Pergunta
- O senhor acha que os programas são muito limitadores?
Rubem Alves - Sim. Se alguém que leciona Matemática dissesse que
sua cabeça só sabe pensar números estaria fazendo uma declaração de incompetência
humana para viver. A Matemática é apenas uma pequena ferramenta para lidar
com certos problemas. Sou a favor de acabar com os programas. Estou voltando
de Alagoas, onde fiquei observando uns meninos lidando com pescadores.
Andando pela praia comecei a pensar o currículo que eu montaria para estudar
com aqueles garotos a estrutura das pedras, das conchas, as águas-vivas,
os peixes, as redes, os barcos, o vento, a meteorologia. Se você chega
lá e diz "hoje vamos estudar análise sintática", não tem nada a ver com
a vida deles, eles não vão se interessar. Por esse mesmo motivo, sou contra
laboratórios dentro de escolas. Na verdade, eles são uma boa maneira de
enganar os pais, que ficam impressionados com os aparelhos, as luzes etc.
Mas contam uma mentira, porque ciência não se faz dentro de um quartinho;
se faz em todas as situações da vida, com cérebro e olho. Aquele monte
de instrumentos e frascos só tem a função de melhorar o olho, mais nada!
É preciso que os aprendizados estejam ligados às situações vividas, caso
contrário tudo é esquecido.
"Nosso
sistema de educação dá a faca e o queijo, mas não desperta a fome nas
crianças"
Pergunta
- Os pais colocariam seus filhos num colégio com um modelo de ensino baseado
em situações vividas, como o senhor defende?
Rubem Alves - Os pais, muitas vezes, são os piores inimigos da
educação. A maioria não está interessada no aprendizado dos filhos. Só
querem que eles passem no vestibular. Eu até compreendo, porque eles são
movidos pela ilusão de que entrando na universidade seus filhos terão
um diploma e isso vai garantir uma sobrevivência econômica digna - o que,
aliás, não é verdade. O Ministério da Educação registra o aumento de matrículas
nas universidades. Por quê? Porque educação é um negócio muito bom, todo
mundo quer ter educação, ganhar dinheiro. Só que não há emprego para todo
esse pessoal que está se formando. Veja o caso dos médicos aqui na região
de Campinas, onde existem cursos na PUC Campinas, Unicamp, Universidade
de Bragança e Jundiaí. Por ano, elas devem colocar no mercado uns 400
médicos - e eles não encontrarão trabalho.
Pergunta
- Voltando à questão da aprendizagem, como nós descartamos aquilo que
é inútil?
Rubem Alves - Eu costumo brincar que o corpo é muito mais inteligente
que a cabeça e ele carrega duas caixas. Uma é a "caixa de ferramentas",
com tudo de que precisamos para resolver questões práticas. Só carregamos
as ferramentas necessárias para as situações que estamos vivendo. Por
exemplo, é idiotice um sujeito levar um furador de gelo para o deserto.
Então, o corpo seleciona o que é realmente útil. Na segunda caixa estão
os brinquedos, tudo aquilo que, não sendo útil, nos dá prazer e alegria:
música, poesia, literatura, pintura, culinária, a capacidade de contemplar
a natureza, de identificar a beleza nos jardins. Essas coisas não servem
para nada, mas compõem a felicidade humana. Quem não as tem é uma pessoa
bruta, estúpida, sem sensibilidade. Tudo o que não é ferramenta nem brinquedo
é esquecido. Isso faz parte da sabedoria do corpo.
Pergunta
- Nossos professores trabalham mais com a "caixa de ferramentas"?
Rubem Alves - Eles nem sequer fazem a seleção correta das ferramentas.
Como a gente aprende a lidar com elas? Eu aprendi a manejar um canivete
porque vi meu pai descascando uma laranja e tive inveja daquilo. Ele então
me ensinou a fazer o mesmo. Quando você busca ferramentas como resposta
para problemas vitais, elas são maravilhosas e necessárias - e você percebe
que não pode viver sem elas. Na escola, porém, o aluno entra numa oficina
e dizem para ele: "Vamos aprender o que é martelo, serrote e prego". As
ferramentas são apresentadas de maneira abstrata e divorciada da vida
e isso é chato.
Pergunta
- Se a "caixa de ferramentas" é mal trabalhada, que dizer da "caixa de
brinquedos"? Ela poderia trazer mais alegria à aprendizagem?
Rubem Alves - Na realidade, nossa educação dá atenção praticamente
zero à "caixa de brinquedos". Mas note que a alegria não está só nela.
É uma delícia saber usar uma ferramenta. Quando a gente era pequeno achava
maravilhoso bater um prego na madeira. Usar o martelo com competência
dava alegria. Um cozinheiro quando corta uma cebola chora, mas se sente
feliz porque está usando com competência uma ferramenta. Nietzsche dizia
que todos nós temos desejo de poder e isso não significa querer ser um
general ou o presidente da República. Ele está dizendo que o homem quer
ter habilidades para controlar a vida. E quanto mais você domina o poder,
mais pode viver. As ferramentas dão esse poder e, sendo assim, são fonte
de alegria. Mas eu preciso desejar fazer a coisa. Se for obrigado, não
terei prazer.
Pergunta
- Essa alegria nascida da manipulação do conhecimento pode ser também
física ou é apenas intelectual?
Rubem Alves - O filósofo francês Gaston Bachelard tem um texto
que diz que somos uma civilização ocular. Trabalhamos e conhecemos com
os olhos, não com as mãos. Às vezes eu brinco que os pensamentos começam
com as mãos, estão ligados àquilo que a gente faz. As escolas, porém,
estão concentradas apenas em atividades cerebrais. Falam em construtivismo,
mas não o praticam. Aliás, todo mundo acha que isso é uma novidade, mas
o Giambattista Vico, um filósofo do século 16, já falava que só podemos
conhecer aquilo que construímos, com as mãos ou com a cabeça. Se a questão
é essa, eu devo construir não só intelectualmente mas também de forma
prática. É isso que desenvolve o prazer de fazer as coisas.
"A
escola insiste em estragar a leitura. Ela deve ser uma coisa solta, vagabunda,
sem relatórios"
Pergunta
- Uma boa aula começaria, então, com um enigma?
Rubem Alves - Antes de mais nada é preciso seduzir. Eu posso iniciar
uma aula mostrando uma casca vazia de caramujo. Normalmente ninguém presta
atenção nela, mas é um assombro de engenharia. Minha função é fazer com
que os alunos notem isso. Os gregos diziam que o pensamento começa quando
a gente fica meio abobalhado diante de um objeto. Eles tinham até uma
palavra para isso - thaumazein. Nesse sentido, a resposta é sim, pois
aquele objeto representa um enigma. Você tem a mesma sensação de quando
está diante de um mágico, ele faz uma coisa absurda e você quer saber
como ele conseguiu aquilo. Com as coisas da vida é o mesmo. Ficamos curiosos
para entender a geometria de um ovo ou como a aranha faz a teia. Estou
me lembrando da Adélia Prado, que diz assim: "Não quero faca nem queijo,
eu quero fome". É isso: a educação começa com a fome. Acontece que nossas
escolas dão a faca e o queijo, mas não dão a fome para as crianças.
Pergunta
- O hábito da leitura é um "estimulante de apetite"?
Rubem Alves - Eu digo que a educação teria completado sua missão
se conseguisse despertar o prazer de ler. Por que os alunos não gostam
de leitura? Primeiro porque a escola faz questão de estragá-la. E a leitura
deve ser uma coisa solta, vagabunda, sem ter de fazer relatório. Ler um
texto só para responder a um questionário de compreensão é horrível, estraga
tudo. Eu tenho aconselhado as prefeituras e as instituições a desenvolver
concertos de leitura, como existem os de piano. Para um concerto, todos
têm de saber o texto praticamente de cabeça e para isso têm de ensaiar.
Lendo, aprendem a gostar.
Pergunta
- Certa vez o senhor fez uma metáfora entre culinária e texto, mostrando
que tem gente que presta mais atenção no prato lascado do que no sabor
da comida. Isso vale para os professores?
Rubem Alves - Essa coisa que eu contei do sujeito que prestava
atenção na lasca do prato e não no sabor da comida é verdade. Tem uma
pessoa aqui em Campinas cujo esporte preferido é escrever longas cartas
para os cronistas de jornal corrigindo os erros de português. Para mim,
a questão da grafia certa ou errada é acidental. Penso como o Patativa
do Assaré, que diz: "Eu acho melhor falar errado dizendo a coisa certa
do que falar certo dizendo a coisa errada". A grande preocupação de quem
educa deve ser o aluno, não a disciplina. E ele deve estar atento não
às palavras, mas ao movimento do pensamento da criança. Mas esse negócio
de prestar atenção no vôo do pensamento me leva a outra questão. Nossas
autoridades educacionais acham que vão melhorar a qualidade do ensino
com cursos de capacitação que, sistematicamente, dão mais conhecimento
para os professores. O que é preciso mudar é a cabeça deles. Nietzsche,
meu filósofo favorito, dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar
a ver. Ou seja, o educador é parte de uma tarefa mágica, capaz de encantar
crianças e adolescentes, o que é bem diferente de simplesmente dar aula.
Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar é muito mais fascinante
....................................
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a leitura da Edição
69 da Revista ReConstruir.
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