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Entrevista
Ano
8 - nº 67 - 15 de outubro de 2008
Emilia
Ferreiro com todas as letras

Emilia
Ferreiro, psicóloga e pesquisadora argentina, radicada no México, fez
seu doutorado na Universidade de Genebra, sob a orientação de Jean Piaget
e, ao contrário de outros grandes pensadores influentes como Piaget, Vygotsky,
Montessori, Freire, todos já falecidos, Ferreiro está viva e continua
seu trabalho. Nasceu na Argentina em 1937, reside no México, onde trabalha
no Departamento de Investigações Educativas (DIE) do Centro de Investigações
e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México.
Fez seu
doutorado sob a orientação de Piaget – na Universidade de Genebra, no
final dos anos 60, dentro da linha de pesquisa inaugurada por Hermine
Sinclair, que Piaget chamou de psicolingüística genética. Voltou em 1971,
à Universidade de Buenos Aires, onde constituiu um grupo de pesquisa sobre
alfabetização do qual faziam parte Ana Teberosky, Alicia Lenzi, Suzana
Fernandez, Ana Maria Kaufman e Lílian Tolchinsk.
Emilia
Ferreiro procurou observar como se realiza a construção da linguagem escrita
na criança. Autora de várias obras, muitas traduzidas e publicadas em
português, já esteve algumas vezes no país, participando de congressos
e seminários.
A entrevista
abaixo foi montada a partir de textos de Emilia Ferreiro publicados no
livro "Com Todas as Letras".
ReConstruir
- Como a senhora vê a alfabetização na América
Latina?
Emilia Ferreiro - É difícil falar de alfabetização
evitando as posturas dominantes neste campo: por um lado, o discurso oficial
e, por outro, o discurso meramente ideologizante, que chamarei "discurso
da denúncia". O discurso official centra-se nas estatísticas;
o outro despreza essas cifras tratando do desvelar "a face oculta"
da alfabetização.
ReConstruir
- Qual é a sua opinião sobre a aprovação
automática?
Emilia Ferreiro - A promoção automática tem
sérios oponentes dentro e fora das fileiras do magistério:
sustentam que é uma medida que leva a "baixar a qualidade
do ensino" e que faz desaparecer o que seria um dos estímulos
fundamentais da aprendizagem (a promoção). A contra-argumentação
é evidente: não será porque a qualidade do ensino
é tão má que tantas crianças não conseguem
aprender? A promoção automática, por si só,
não faz senão deslocar o "funil da repetência",
criando, em nível de outra série do ensino fundamental,
um problema novo para resolver.
ReConstruir
- Sabendo que a realidade de muitos países da América
Latina é o subdesenvolvimento, como fica a qualidade da alfabetização
de crianças e adultos?
Emilia Ferreiro - A alfabetização parece enfrentar-se
com um dilema: ao estender o alcance dos serviços educativos, baixa-se
a qualidade, e se consegue apenas um "mínimo de alfabetização".
Isso é alcançar um nível "técnico rudimentar",
apenas a possibilidade de decodificar textos breves e escrever palavras,
porém sem atingir a língua escrita como tal. Nada garante
que tais aquisições perdurem, sobretudo se levarmos em conta
que a vida rural nos países da região ainda não requer
um uso cotidiano da língua escrita. Mais ainda: por mais bem sucedidas
que sejam as campanhas de alfabetização de adultos, não
há garantias de se alcançar percentagens de alfabetização
altas e duráveis enquanto a escola primária não cumprir
eficazmente sua tarefa alfabetizadora. Na medida em que a escola primária
continuar expulsando grupos consideráveis de crianças que
não consegue alfabetizar, continuará reproduzindo o anafalbetismo
dos adultos.
ReConstruir
- Quem é melhor de ser alfabetizado: a criança ou o adulto?
Emilia Ferreiro - De todos os grupos populacionais, as crianças
são as mais facilmente alfabetizáveis. Elas têm mais
tempo disponível para dedicar à alfabetização
do que qualquer outro grupo de idade e estão em processo contínuo
de aprendizagem, dentro e fora do contexto escolar, enquanto os adultos
já fixaram formas de ação e de conhecimento mais
difíceis de modificar.
ReConstruir
- Quais são os objetivos da alfabetização inicial?
Emilia Ferreiro - Frequentemente esses objetivos se definem de
forma muito geral nos planos e programas, e de uma maneira muito contraditória
na prática cotidiana e nos exercícios propostos para a aprendizagem.
É comum registrar nos objetivos expostos nas introduções
de planos, manuais e programas, que a criança deve alcançar
"o prazer da leitura" e que deve ser capaz de "expressar-se
por escrito". As práticas convencionais levam, todavia, a
que a expressão escrita se confunda com a possibilidade de repetir
fórmulas estereotipadas, a que se pratique uma escrita fora do
contexto, sem nenhuma função comunicativa real e nem sequer
com a função de preservar informação. Um dos
resultados conhecidos de todos é que essa expressão escrita
é tão pobre e precária que inclusive aqueles que
chegam à universidade apresentam sérias deficiências
que levaram ao escândalo da presença de "oficinas de
leitura e de redação" em várias instituições
de nível superior da América Latina. Outro resultado bem
conhecido é a grande inibição que os jovens e adultos
mal alafabetizados apresentam com respeito à língua escrita:
evitam escrever, tanto por medo de cometer erros de ortografia como pela
dificuldade de dizer por escrito o que são capazes de dizer oralmente.
ReConstruir
- Como deve ser trabalhada a leitura no processo de alfabetização?
Emilia Ferreiro - O "prazer da leitura" leva a privilegiar
um único tipo de texto: a narrativa ou a literatura de ficção,
esquecendo que uma das funções principais da leitura ao
longo de toda a escolaridade é a obtenção de informação
a partir de textos escritos. Ainda que as crianças devam ler nas
aulas de Estudos Sociais, Ciências Naturais e Matemática,
essa leitura aparece dissociada da "leitura" que corresponde
às auilas de língua. Um dos resultados é, uma vez
mais, um déficit bem conhecido em nível dos cursos médio
e superior: os estudantes não sabem resumir um texto, não
são capazes de reconhecer as idéias principais e, o que
é pior, não sabem seguir uma linha argumentativa de modo
a identificar se as conclusões que se apresentam são coerentes
com a argumentação precedente. Portanto, não são
leitores críticos capazes de perguntar-se, diante de um texto,
se há razões para compartilhar do ponto de vista ou da argumentação
do autor.
ReConstruir
- A metodologia, então, deve ser mudada?
Emilia Ferreiro - A ênfase praticamente exclusiva na cópia,
durante as etapas iniciais da aprendizagem, excluindo tentativas de criar
representações para séries de unidades linguísticas
similares (listas) ou para mensagens sintaticamente elaboradas (textos),
faz com que a escrita se apresente como um projeto alheio à própria
capacidade de compreensão. Está ali para ser copiado, reproduzido,
porém não compreendido, nem recriado.
ReConstruir
- Você afirma que a compreensão das funções
da língua escrita na sociedade depende de como a família
e a escola estimulam o ambiente alfabetizado...
Emilia Ferreiro - As crianças que crescem em famílias
onde há pessoas alfabetizadas e onde ler e escrever são
atividades cotidianas, recebem esta informação através
da participação em atos sociais onde a língua escrita
cumpre funções precisas. Por exemplo, a lista de compras
do mercado; uma busca na lista telefônica de algum serviço
de conserto de aparelhos quebrados; o recebimento de um recado que deve
ser lido por outro familiar. Essa informação que uma criança
que cresce em um ambiente alfabetizado recebe cotidianamente é
inacessível para aqueles que crescem em lares com níveis
de alfabetização baixos ou nulos. Isso é o que a
escola "dá por sabido", ocultando assim sistematicamente,
àqueles que mais necessitam, para que serve a língua escrita.
ReConstruir
- Mas o aprendizado não deve ser feito num ambiente de criatividade?
Emilia Ferreiro - Por mais que se repita nas declarações
iniciais dos métodos, manuais ou programas, que a criança
aprende em função de sua atividade, e que se tem que estimular
o raciocínio e a criatividade, as práticas de introdução
à língua escrita desmentem sistematicamente tais declarações.
O ensino neste domínio continua apegado às práticas
mais envelhecidas da escola tradicional, aquelas que supõem que
só se aprende algo através da repetição, da
memorização, da cópia reiterada de modelos, da mecanização.
ReConstruir
- Existe saída para termos uma melhor alfabetização?
Emilia Ferreiro - Com base em uma série de experiências
inovadoras de alfabetização, parece viável estabelecer
de maneira diferente os objetivos da alfabetização de crianças.
Em dois anos de escolaridade crianças muito marginalizadas podem
conseguir uma alfabetização de melhor qualidade, entendendo
por isso: compreensão do modo de representação da
linguagem que corresponde ao sistema alfabético da escrita; compreensão
das funções sociais da escrita; leitura compreensiva de
textos que correspondem a diferentes registros de língua escrita;
produção de textos respeitando os modos de organização
da língua escrita que correspondem a esses diferentes registros;
atitude de curiosidade e falta de medo diante da língua escrita.
....................................
Continue
a leitura da Edição
67 da Revista ReConstruir.
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