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Entrevista
Ano
7 - nº 60 - 16 de agosto de 2007
Léo
Buscaglia: viver, educar, amar
Felice
Leonardo Buscaglia (31 de março de 1924 - 12 de junho de 1998). Foi professor
e escritor ítalo-americano, que ministrou aulas na Universidade do Sul
da Califórnia - EUA, tendo sido autor de artigos para o New York Times
sobre assuntos relacionados ao amor e sobre o humano. E também foi idealizador
de um curso sobre Amor na própria universidade. "Ao que eu saiba, somos
a única escola do país, e talvez no mundo, que tem uma disciplina chamada
"Amor", e eu o único professor bastante louco a ponto de ensiná-la".'
Leo Buscaglia
foi um dos maiores escritores acerca do Amor dos últimos tempos. Seus
livros mudaram a maneira como muitas pessoas viam o Amor, sempre exaltando
as idéias de se viver o momento, expressar o amor que se sente por alguém
e não criar expectativas. Seu primeiro livro, "Amor", foi publicado em
1972. Criou, antes de morrer, a ONG Felice, dedicada à ajuda aos carentes
em todo o mundo. Por uma estranha coincidência do destino, faleceu aos
74 anos no dia 12 de junho de 1998 (dia dos Namorados no Brasil); de ataque
cardíaco enquanto dormia em sua casa no lago Tahoe, California.

O
senhor correu um grande risco na universidade ao propor aulas de amor,
não é mesmo?
Os riscos têm de ser corridos, pois o maior risco na vida é não arriscar
nada. A pessoa que não arrisca nada, não faz nada, não tem nada, não é
nada e não se torna coisa alguma. Pode evitar o sofrimento e a tristeza,
mas não pode aprender, sentir, modificar-se, crescer, amar e viver. Acorrentado
por suas certezas, é um escravo. Foi privado do direito de sua liberdade.
Somente a pessoa que arrisca é verdadeiramente livre.
E
qual sua definição para "amor"?
Acho que o amor é muito parecido com o espelho. Quando amo alguém, essa
pessoa torna-se meu espelho e eu me torno o dele; e refletindo-se um no
amor do outro, vemos o infinito. Não existem tipos de amor, o amor é amor;
só existem intensidades de amor. O amor é confiar, aceitar e acreditar,
sem garantias. O amor é paciente e espera, mas é uma espera ativa, não
passiva. Está se oferecendo continuamente numa revelação mútua, num compartilhar
mútuo. O amor é espontâneo e precisa se expressar pela alegria, pela beleza,
pela verdade, mesmo pelas lágrimas. O amor vive o momento; não está perdido
no passado nem precisa do amanhã. O amor é Agora!
É
possível confiar no amor?
Se você ama verdadeiramente, não tem escolha a não ser acreditar, confiar,
aceitar e esperar receber amor de volta. Mas não pode haver nenhuma certeza,
nenhuma garantia. Se alguém espera amar apenas quando tiver certeza de
receber o mesmo amor de volta, poderá esperar eternamente. Uma pessoa
ama porque deseja, porque isso lhe dá alegria, porque sabe que o crescimento
e a des-coberta de si próprio depende disso. Sabe que a única garantia
que tem está dentro de si. Se confia e acredita em si próprio, você confiará
e acreditará nos outros. Está ansioso para aceitar tudo que possam lhe
dar, mas só pode ter certeza e depender de si próprio.
E
a educação?
Talvez a essência da educação não seja entupir os jovens de fatos, e sim
ajudá-los a descobrir a sua singularidade, ensinar-lhes a desenvolvê-la
e depois mostrar-lhes como doá-la. Nenhum professor jamais ensinou alguma
coisa a alguém. As pessoas aprendem por si. Como professores temos que
acreditar na mudança, temos que saber que é possível, do contrário não
estaríamos ensinando, pois a educação é um constante processo de modificação.
Há uma mesa cheia de maravilhas. A educação é o processo de levar as pessoas
a ela. Você pode enfeitar a mesa, não pode obrigar ninguém a comer.
Todo mundo ensina a todo mundo, o tempo todo, o que são e quem são. Por
isso é que todo mundo é professor. Como pessoa afetuosa, é bom você ter
muito, muito cuidado com os rótulos que põe nos outros.
Podemos
falar em verdadeiro amor?
O amor perfeito seria aquele que dá tudo e não espera nada. É claro que
seria desejável e maravilhoso que se captasse qualquer coisa que fosse
oferecida, quanto mais melhor. Mas não se deve pedir nada. Pois se não
se esperar nem se pedir nada, não se ficará desiludido nem desapontado.
É só quando o amor pede que ele pode causar sofrimento. Esperar alguma
coisa de alguém por ser nosso direito é procurar a infelicidade. Os outros
podem e só darão aquilo que têm e não o que você deseja que lhe seja dado.
Quando parar de impor condições no seu amor, terá dado um gigantesco passo
no aprendizado do amor. Só existe amor quando ele é dado sem se esperar
nada em troca.
Como
conciliar amor e liberdade?
Há formas de se refutar as exigências da sociedade e fazer o que queremos.
É saber onde, quando e como. Um homem livre é livre mesmo na mais escura
das prisões. E então, a pessoa que ama, para aprender e para mudar e para
recomeçar, precisa também da liberdade. Thoreau disse uma coisa maravilhosa:
´Um pássaro nunca canta na gaiola.´ E nem as pessoas. Você tem de ser
livre para aprender. Se você reconhece a necessidade de ser livre para
descobrir o que é, permitirá que os outros também tenham liberdade de
fazê-lo. O amor necessita da liberdade. Cada homem cres-cendo no amor
descobrirá seu próprio caminho, sua própria direção para o amor. A fim
de aprender, temos de ser livres. Você tem de ser livre para experimentar,
tentar, livre para errar, e lucro muito com meus erros. O segredo está
em não cometer o mesmo erro duas vezes. Mas preciso estar livre para experimentar
e tentar.
Como
mudar a própria vida e também o que fazemos na educação?
Se você não gosta do ambiente em que vive, se é infeliz, solitário, se
não sente que as coisas estão acontecendo, mude de ambiente. Pinte um
novo cenário. Cerque-se de novos personagens. Escreva uma nova peça, livre-se
do roteiro que tanto o fez sofrer e escreva outro. Existem milhões de
roteiros, assim como peças. Temos que nos lembrar que nenhuma modificação
acontece sem que trabalhemos arduamente e sem que sujemos as mãos. Não
há fórmula nem livros para se decorar para começar. Só sei disso: existo,
sou, estou aqui, estou começando, faço minha vida e ninguém mais a faz
para mim. Tenho que encarar minhas próprias falhas, erros e transgressões.
Ninguém pode sofrer por não ser como sou, mas amanhã é um outro dia e
tenho que me levantar e viver de novo. E se não der certo não tenho o
direito de reclamar de você, da vida ou de Deus.
Então
é preciso acreditar em si mesmo e na vida?
Temos que nos livrar dos 'não faça'. Temos que nos livrar dos 'nuncas'.
Temos de nos livrar dos 'não posso'. Temos que nos livrar dos 'não'- que
palavra mais negativa! Temos que nos livrar dos 'impossível.' Não há nada
impossível. Temos que nos livrar dos 'sem esperança.' Não há nada sem
esperança. Estas são palavras para tolos, e não para gente inteligente.
Apague-as do seu vocabulário. Nunca diga nunca! Impossível? Claro que
é possível. Diga 'sim'à vida! 'Sim' ao assombro, à alegria, ao desespero.
'Sim' à dor, 'sim'ao que você não entende. Experimente o 'sim'. Experimente
'sempre'. Experimente 'possível'. Experimente 'esperançoso'. Experimente
'farei'. E experimente 'posso'.
E
como fica, no amor, a questão do perdão?
Torne a inventar o perdão. Você nunca poderá escolher a vida até aprender
a perdoar! Você perdoa as pessoas que lhe fizeram mal aprendendo a perdoá-las
e dizendo: 'Está bem.' Pois, se não o fizer, carrega essas coisas nas
costas como um peso morto e esse peso o derruba. Quando você aprender
a perdoar, e quando reaprender a indulgência poderá cortar fora esse peso
e todas as energias que você usa para controlar essas coisas podem, agora,
ser usadas para ajudá-lo a crescer e se tornar belo. Assim, não carregue
o seu passado por aí, como um peso morto. Largue-o! Aprenda com ele e
largue-o.
Voltando
para a educação, como o senhor avalia a "era do conhecimento"?
O conhecimento não é sabedoria! A aprendizagem só em si não é sabedoria.
A sabedoria é a aplicação do conhecimento e dos fatos. A sabedoria é se
dar conta de que você não sabe nada. A sabedoria é dizer: 'Minha mente
está aberta. Onde quer que eu esteja, estou apenas começando. Há cem vezes
mais coisas a perceber do que o conheço." Isso é o princípio da sabedoria.
E
como sonhar com uma educação melhor, com um mundo mais feliz?
Será uma pena se você só acreditar naquilo que puder ser comprovado por
meios estatísticos. Sinto muita pena de você, se só for governado pelo
que pode medir, pois eu tenho curiosidade pelo incomensurável. Interesso-me
pelos sonhos, e não só pelo que existe aqui. Não me importa a mínima o
que está aqui. Isso eu vejo. Muito bem, meça, se quiser passar a vida
medindo, mas a mim interessa o que está lá fora. Há tanta coisa que não
vemos, não tocamos, não sentimos, não compreendemos. Supomos que a realidade
seja a caixa em que fomos colocados, e não é, eu lhes asseguro. Abra a
porta, um dia, e olhe para fora para ver quanta coisa há. O sonho de hoje
será a realidade de amanhã. No entanto, nós nos esquecemos de como sonhar.
....................................
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a leitura da Edição
60 da Revista ReConstruir.
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