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Entrevista
Ano
7 - nº 59 - 17 de julho de 2007
A
educação do homem
JEAN-JACQUES
ROUSSEAU (28 de Junho de 1712, Genebra - 2 de Julho de 1778, Ermenonville,
perto de Paris) foi um filósofo suíço, escritor, teórico político e um
compositor musical autodidata. Uma das figuras marcantes do Iluminismo
francês, Rousseau é também um precursor do romantismo. Rousseau foi uma
das principais inspirações ideológicas da segunda fase da Revolução Francesa
- a última das revoluções modernas. Inspirados nas idéias de Rousseau,
os revolucionários defendiam o princípio da soberania popular e da igualdade
de direitos. A contestação da sociedade tal como estava organizada foi
tema do ensaio Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade
entre os Homens (1755), em que se vê a desigualdade e a injustiça como
frutos da competição e da hierarquia mal constituída. Nossa equipe de
redação utilizou o livro Emílio ou Da Educação (1762) para formatar esta
entrevista.

Como
o senhor vê o homem e sua educação?
Nascemos fracos, temos necessidade de forças; nascemos desprovidos de
tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, temos necessidade
de juízo. Tudo isto que não temos no nascimento e possuímos quando somos
grandes, é-nos dado pela educação. Esta educação vem-nos da natureza,
ou dos homens ou das coisas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades
e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer
desse desenvolvimento é a educação dos homens; e a aquisição de nossa
própria experiência sobre os objetos que nos cercam é a educação das coisas.
E
qual dessas três educações é a mais importante?
Somos formados por três espécies de mestres. O discípulo para o qual as
diversas lições se contrariem, é mal educado, e não estará jamais de acordo
consigo mesmo; aquele para quem as lições dirigem-se todas para os mesmos
fins, e tendem para os mesmos alvos, vai sozinho para sua meta e vive
coerentemente. Só esse é bem educado. Ora, dessas três educações diferentes,
a da natureza não depende nada de nós; a das coisas não depende senão
em certos pontos. A do homem é a única da qual seríamos verdadeiramente
senhores. Ainda assim não o somos senão por suposição. Porque quem pode
esperar dirigir totalmente as palavras e ações de todos aqueles que rodeiam
as crianças?
Se
a educação é tão dependente do próprio homem, o que devemos fazer para
que ela consiga educá-lo?
Posto que a educação é uma arte, é quase impossível que ela triunfe, já
que o concurso necessário a seu sucesso não depende de ninguém. Tudo que
se pode fazer, à força de cuidados, é aproximar-se mais ou menos do alvo.
Mas é preciso sorte para atingi-lo. Qual é esse alvo? É o mesmo da natureza.
Já que o concurso das três educações é necessário à sua perfeição, é para
aquela sobre a qual nada podemos que é preciso dirigir as duas outras.
E
como podemos entender a natureza?
A natureza, diz-se, é apenas o hábito. Que significa isso? Não há hábitos
que se contraem pela força e que não sufocam nunca a natureza? Tal é por
exemplo, o hábito das plantas às quais se comprimem a direção vertical.
A planta, posta em liberdade, guarda a inclinação que lhe foi forçada
a tomar; mas, a seiva não modifica, com isso, sua direção primitiva; e
se a planta continua a vegetar, seu prolongamento voltará a ser vertical.
Dá-se o mesmo com a inclinação dos homens. Enquanto permanecemos numa
mesma situação, podemos conservar aquelas que resultam do hábito, e que
nos são menos naturais. Mas tão logo a situação mude, o hábito cessa e
o natural se restabelece. A educação não é certamente senão um hábito.
Ora, não há pessoas que olvidam e perdem sua educação e outras que a conservam?
De onde vem essa diferença? Se restringirmos o nome de natureza aos hábitos
conformes à natureza, podem-se poupar essas confusões.
Qual
a relação entre a natureza e os hábitos?
Nascemos sensíveis e, desde nosso nascimento, somos afetados de diversas
maneiras pelos objetos que nos cercam. Tão logo temos por assim dizer
consciência de nossas sensações, estamos dispostos a procurar ou fugir
dos objetos que as produzem, primeiramente segundo nos sejam agradáveis
ou desagradáveis, depois segundo a conveniência ou desconveniência que
encontramos entre nós e esses objetos e, enfim, segundo os juízos que
tenhamos deles em relação à idéia de sorte ou perfeição que a razão nos
fornece. Estas disposições estendem-se e formam-se à medida que nos tornarmos
mais sensíveis e mais esclarecidos, mas, constrangidos por nossos hábitos,
elas alteram-se mais ou menos pelas nossas opiniões. Antes dessa alteração,
elas são o que eu chamo em nós de natureza. É pois a essas disposições
primitivas que é necessário reportar e isso se conseguirá se nossas três
educações não forem diferentes. Mas que fazer quando elas são opostas?
Quando, em lugar de educar-se um homem para si mesmo, quer-se educá-lo
para outro? Então, a concordância é impossível. Forçado a combater a natureza
ou as instituições sociais, é preciso optar entre fazer um homem ou um
cidadão, porque não se pode fazer um e outro ao mesmo tempo.
Como
o senhor entende o processo ensino-aprendizagem?
A aparente facilidade de aprender é causa da perda das crianças, Não se
vê que facilidade mesma é a prova que elas não aprendem nada. Seu cérebro
liso e polido devolve como um espelho os objetos que se lhes apresentam;
mas nada permanece, nada penetra. A criança retém as palavras, as idéias
são refletidas; aqueles que as ouvem entendem-nas, só ela não as entende.
Posto que a memória e o raciocínio sejam duas faculdades essencialmente
diferentes, uma não se desenvolve verdadeiramente sem a outra. Antes da
idade da razão, a criança não recebe idéias mas imagens; e há esta diferença
entre umas e outras; as imagens não são senão pinturas absolutas dos objetos
sensíveis e as idéias são noções dos objetos determinados pelas relações.
Uma imagem pode estar só no espírito em que se a representa; mas toda
idéia supõe outras. Quando imaginamos, vemos; quando concebemos, comparamos.
Nossas sensações são puramente passivas, ao passo que todas as nossas
percepções ou idéias nascem de um princípio ativo que julga.
Isso
quer dizer que não está havendo verdadeira aprendizagem no ensino ministrado
às crianças?
Digo que as crianças não sendo capazes de juízo, não têm verdadeira memória.
Elas retém sons, figuras, sensações, raramente idéias, mais raramente
ligações. Em me objetando que elas aprendem alguns elementos de Geometria
crê-se provar contra mim; e, ao contrário, é por mim que se prova; mostra-se
que, longe de saber raciocinar por si mesmas, elas não sabem sequer reter
os raciocínios de outros; porque, seguindo esses pequenos geômetras no
seu método, vê-se logo que eles retém apenas a exata impressão da figura
e os termos da demonstração. À menor objeção nova, eles não sabem mais;
inverta-se a figura e eles não entenderão mais. Todo o seu saber está
na sensação, nada chegou ao entendimento. Sua memória mesma não é muito
mais perfeita que suas outras faculdades, pois que é preciso quase sempre
que eles reaprendam, quando grandes, as coisas que aprenderam na infância.
A questão parece estar tanto naquilo que se ensina quanto no como se ensina...
Estou bem longe de pensar que as crianças não tenham nenhuma espécie de
raciocínio. Ao contrário, vejo que raciocinam muito bem sobre tudo que
conhecem e que se ajustam aos seus interesses presentes e sensíveis. Mas,
é sobre seus conhecimentos que nos enganamos ao se lhes atribuir aquilo
que não têm, e fazendo-as raciocinar sobre o que não sabem compreender.
Enganamo-nos ainda ao querermos torná-las atentas a considerações que
não as tocam de maneira nenhuma, como as de seu interesse futuro, de seu
destino quando adultas; palavras que, ditas a seres desprovidos de toda
previsão, não significam absolutamente nada. Ora, todos os estudos forçados
destas pobres infelizes tendem para objetos inteiramente estranhos a seus
espíritos.
Qual
é, então, a finalidade do ensino?
Lembrai-vos sempre que o espírito de minha instituição não é ensinar à
criança muitas coisas, mas de jamais fazer entrar em seu cérebro senão
idéias justas e claras. Quando ela não souber nada, pouco importa, contanto
que ela não se engane, e não ponho verdades na sua cabeça senão para garanti-la
contra os erros que ela aprenderia em seu lugar. A razão, o julgamento
vêm lentamente, os preconceitos acorrem em multidão; é contra esses que
cumpre preservá-la. Quando vejo um homem enamorado pelos conhecimentos
deixar-se seduzir por seu encanto e correr de um a outro sem saber parar,
creio ver uma criança na praia pegando conchinhas, começando a sobrecarregar-se
com elas e depois, tentando por outras que ainda vê, atirá-las fora, tornar
a pegá-las, até que acaba por jogar tudo fora e volta sem nada.
....................................
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a leitura da Edição
59 da Revista ReConstruir.
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