Ano 10 - nº 85 - Abril de 2011 - A revista do educador
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Eduquemo-nos
Ronaldo Gomes
Educação sem lágrimas, mais uma vez, até quando?


Em agosto de 2010 escrevi o artigo "Educação sem lágrimas", onde disserto sobre a violência e as balas perdidas.

Segue apenas uma parte : “Podemos reverter este quadro caótico e perverso em que nos encontramos. Todos nós, pais, educadores, gestores, devemos rever nossa conduta diante de nosso educando. Até quando estaremos fingindo que nada acontece, e, nos sensibilizando apenas quando esses acontecimentos aterrorizantes nos acometem? Ontem, como hoje, estamos chorando por mais uma fatalidade, com toda certeza amanhã outros acontecimentos piores estarão acontecendo, mais crianças, adultos, jovens, estarão sendo vitimados por nossas ações egoísticas. As noticias estarão estampadas nos jornais. Até quando?

Aliviar a dor da perda de uma criança: o filho, o amigo, o educando, não há palavras. Lágrimas somente lágrimas. “Os tiros matam muita gente”. “Palavras da criança antes de morrer por uma bala perdida em sala de aula.”

Hoje choramos por mais uma tragédia, famílias totalmente destruídas pela perda de seus filhos dentro da própria escola. Muito se discute até hoje sobre o ex-aluno que vitimou várias vidas. Psicopatia, doença mental, carência, bullying sofrido na escola, mais segurança, movimentos pela paz, psiquiatras e psicólogos dando seus pareceres clínicos etc.

Todas as manchetes nos jornais, rádio, televisão, internet, falam sobre o assunto, no entanto, não observei pontuarem sobre o aspecto, que a meu ver é o essencial, destacar a importância da educação moral, do amor, dos valores humanos, da ética, da formação do caráter, a importância da vida.

Ficamos sempre nos mesmos discursos, onde, sem ir à base da solução do problema: Educação moral. Moral que assusta, porque temos a moral como um bicho papão, como já ouvi em muitos comentários, “ninguém tem moral para falar disso ou daquilo”. Esquecem que moral é a regra do bem procedermos uns com os outros, no respeito, nos limites de onde começam os nossos direitos e deveres.

A sociedade tem avançado muito em inteligência, no entanto, a afetividade fica em longa distância, por conta do capitalismo e na necessidade do TER apagando o verdadeiro sentido da vida, o SER.

O ser gente, o ser vivo, o ser pessoa, o ser solidário, o ser respeitoso, o ser amoroso, o ser amigo, o ser educador, o ser aluno, o ser colega de classe, o ser afetuoso, o ser compreensivo, o ser colega, ser honesto, ser verdadeiro,  o ser família, o ser pai, o ser mãe, o ser filho, o ser irmão etc. Temos sempre de levar em consideração o seio familiar e toda estrutura que lhe cerca, assim como, a escola que frequenta e sua real postura em educar para a cidadania, para a vida em sociedade, em sua formação. O interior de nosso ser precisa ser burilado, trabalhado com reais valores, chega de fingirmos que nada acontece na sociedade, afinal somos a sociedade.

Não há como esquecer os valores, porém, de que valores humanos estamos falando, se temos invertido esses valores no simples TER?. Ser responsável e ter responsabilidade?  Ser social ou ter sociabilidade? É um conjunto de fatores, que se principia sempre no seio familiar, é neste momento que crescemos, temos as primeiras lições de vida, de valores, de afeto, etc. Mas, se esta família está em desequilíbrio, em plena queda e inversão de valores, é porque a sociedade assim está preconizando em sua ideologia, seja na política educacional, ou na politicagem que determina a educação tecnicista, sem maiores preocupações com o ser humano.

A junção educativa entre família e escola deve ser uma prática contínua. Escola com profissionais qualificados, gestores, psicólogos, orientadores, psicopedagogos, educadores se qualificando, se atualizando.

Quando detectar algum comportamento estranho dos seus educandos, ou, mesmo educadores, pais etc, estes profissionais devem ser acionados, para o encaminhamento destes. Estruturar fisicamente, e, mas adequadas nas reais necessidades da comunidade onde esteja inserida.

Moral e ética se perdem a cada dia, por conta da preocupação tão somente em desenvolvermos a cognição, não havendo o desenvolvimento afetivo, ficando simplesmente a cargo da família, isso quando a família está equilibrada.  Grande erro, ledo engano. Não vemos na mídia de uma forma geral, falarem em moral, afetividade, caráter, valores. Ficamos nos discursos materialistas em busca de uma solução que está no esquecimento e inversão desses valores: A importância do Ter. O ser fica esquecido, adormecido.

O ter caráter é através da educação dos valores, da moral, do amor, na educação que dignifica o ser humano, não o exterior, mas o seu interior na transformação do homem, mais critico e autônomo, verdadeiramente humano.

Chega de educação bancária (Paulo Freire), ainda cometemos os mesmo erros. Precisamos quebrar paradigmas, com ampla discussão educacional, todos sem exceções. Chega de sermos manipulados por ordens que saem de gabinetes, sem terem de fato vivenciado o dia a dia de cada escola onde esta esteja inserida. Em sala de aula podemos debater todos os assuntos, não apenas os conteúdos, chega de engodos, Os conteúdos são importantes para nossa formação profissional, mas devemos abri espaços para a vida, a realidade, o mundo, debater sempre, sem mascarar a verdade, trabalhando paulatinamente com nossos educados os valores que pertencem ao ser humano, e no feedback que acarreta nossas ações mais à frente contra nós mesmos, sendo ruim ou bom, no que fazemos ao nosso semelhante. As notícias falam por si.

As diversidades culturais, econômicas e políticas, assim como a vida de cada um dos que ali vivem. Os educadores, pais, gestores, comunidades, precisam ser ouvidos, participando das elaborações curriculares, por que não?

Se a educação não é o caminho, caminhar sem a educação é permanecer na escuridão da ignorância.

Em creches, escolas, instituições universitárias, onde deveríamos estar educando, ainda presenciamos muitos descasos, indiferenças, distorções educativas, presença decorativa em sala de aula de muitos professores em suas ações, cansados, esquecidos, desrespeitados, mal remunerados.

Enquanto estivermos educando sem sentimento, sem amor, sem moral, a indiferença, a frieza, a prepotência, a hipocrisia, filhas do egoísmo, se farão cada vez mais presentes nas ações humanas, encadeando desgraças, guerras sem fim, misérias, fome, violências etc.

Há mais doentes, que doenças. Doentes de amor, de afeto, de sensibilidade, de moral, de ética, de caráter.

Família e escola devem unir-se em prol da educação com amor, pela vida, no desenvolvimento da cognição e do sentimento.

Que nossas ações e união sejam de sentimento a todo tempo, não somente unirmo-nos nas tragédias.

Educar é prevenir, e prevenção se faz com  educação para a vida, com amor.

Eduquemo-nos!

Ronaldo Gomes é professor, Pedagogo, Psicopedagogo e escritor.




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