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Atualidade Ano 8 - nº 68 - 15 de novembro de 2008 A educação tem jeito? por Camila Gonçalves De Mario* A educação no Brasil ainda tem jeito? Foi o título do terceiro Fórum da Cidadania, que aconteceu em Campinas no dia 29/10/2008, na Livraria Cultura, promovido pelo Grupo Democracia e Cidadania. Na mesa de debates três professores, Ronaldo Nicolai, professor de matemática com mais de 30 anos de experiência na rede pública, e também professor da rede privada; Reginaldo Meloni, Presidente do SINPRO - Sindicato dos Professores de Campinas, e Jorge Megid Neto, Diretor da Faculdade de Educação da Unicamp, ex-professor de Física do Ensino Médio. Três professores, com diferentes experiências profissionais, mas carregando a mesma angústia: a sociedade precisa saber o que acontece em sala de aula. Essa foi a tônica de um debate preocupante, preocupante pelo seu tema, pelo seu conteúdo e pela sensação de desalento que provoca naqueles que estão trabalhando em prol do tema e que dedicaram sua vida ao ensino. Ronaldo começou sua fala com um desabafo: declarou que fugiu do ensino público estadual; continuou afirmando que hoje a nossa escola pública traz duas coisas aos jovens: descrédito e desesperança, e completou: “ A sociedade de uma maneira geral não tem idéia do que acontece na escola pública, o problema é que o aluno pensa que escola é isso que eles conhecem”. Para nosso desalento deu continuidade a sua fala trazendo alguns dados: pelo menos 1/3 dos professores das escolas públicas faltam todos os dias, no lugar deles quem vai para a sala de aula é o substituto, professor que nem sempre tem a formação necessária para assumir a disciplina, melhor, a aula do professor faltante, ou seja, é comum alguém com formação em português entrar em sala para dar aulas de física, química, matemática...; que ele mesmo conheceu alunos que nunca tiveram aula de física no ensino médio por falta de professor, bem como chegou a ter uma turma de sexta série que não conseguia resolver problemas matemáticos porque não sabiam ler; para completar: para passar de ano o aluno não precisa nem ir à escola, falta caiu de moda. Reginaldo nos chamou a atenção para o fato de que a falta de qualidade não acontece só nos limites da escola pública, ela também está na rede privada, para ele, há um grande preconceito contra a escola pública no Brasil e que, adotou-se como solução para os problemas enfrentados pela rede pública a escola privada. Portanto, ao invés de cobrar resolução e trabalhar em prol do público, nossa classe média, aqueles que têm poder econômico, optaram a pagar duas vezes por um direito – a educação pública é um direito social universal - e assim garantir uma formação de qualidade aos seus filhos, reforçando o abismo cultural marca de nossa sociedade. Mas, nas escolas privadas, que pagamos caro, também temos professores mau remunerados, desmotivados e desagregados, que não conseguem se articular de forma organizada com sua categoria. Há escolas que proíbem a presença do sindicato, impedem a sindicalização de seus docentes, sob a ameaça do desemprego; e que, por outro lado, impedem que os alunos se organizem em Grêmios, por exemplo. Esta escola consegue formar o cidadão? Ensinar não se restringe apenas a transferência de conteúdo aos alunos e preparação para o vestibular, mas também trabalhar a cidadania, a formação, valores morais e éticos que servirão de parâmetro para que cada indivíduo seja capaz de formular opiniões, expressá-las e participar politicamente da vida em sociedade. Esta formação não está ausente só da rede pública, muitas escolas privadas também não estão voltadas para ela. Mas qual a causa de nossos males? Por um lado, a progressão continuada, apontada por todos os nossos palestrantes; de outro, o subfinanciamento, ou, um gerenciamento inadequado de recursos. Jorge Megid, colocou que a progressão continuada foi implantada apenas para atender formalmente uma exigência do Banco Mundial que cobrava uma solução para o grande número de repetências, e para a evasão escolar, bem, se muitos repetiam, agora mais ninguém repete, cortou-se literalmente o mal pela raiz. Criamos uma escola na qual o professor está perdendo sua autoridade, onde os alunos sabem que não serão reprovados, e que está desestimulando os dois lados. Perdeu-se também o rigor com o conteúdo, em uma escola que se justifica afirmando que sua proposta não é preparar alunos para o vestibular, mas que também acaba não preparando para o mercado de trabalho e para a vida. Quanto ao financiamento é consenso que o dinheiro que está sendo aplicado não é suficiente, além de muitas vezes ser mau gasto: compram-se equipamentos sem previsões de manutenção, quando estes ficam ociosos, ou precisam de reparos, ficam parados porque falta dinheiro e/ou agilidade na gestão administrativa; compram-se livros didáticos em números enormes a um preço extremamente alto, principalmente, se levarmos em consideração a quantidade adquirida; já o professor ganha pouco, assume aulas demais, não tem tempo para se dedicar a preparação de aulas e não consegue se manter atualizado. A mesa citou vários exemplos de mudanças na política que foram feitas apenas para atender uma exigência externa ou uma nova lei - da pior maneira possível - o mais recente é o “jeitinho” que o atual Governo do Estado de São Paulo encontrou para atender uma lei federal que estabelece que o professor deve ter 1/3 de sua carga horária para preparar aula. O governo somou todos os momentos durante um dia de aula em que o professor não está em sala de aula, como, a troca de salas entre uma aula e outra, e o período de intervalo concedido - a alunos e professores – e, cumpriu a lei, justificando que esse tempo fora de sala representa 1/3 da jornada do professor. Porque o aluno está violento? Porque o professor está apático? Porque a sociedade não se manifesta? Algumas pistas: o aluno está sendo profundamente desrespeitado por uma escola que não cumpre sua função; o professor está desmobilizado e insuficientemente organizado enquanto categoria, além de estar criando mecanismos de resistência para continuar sobrevivendo a um cotidiano doente, e para se convencer de que a mudança está além de sua capacidade de atuação; a sociedade, bem, quanto aos mais pobres poderíamos dizer que não têm parâmetros e capital cultural suficiente para avaliar a escola que lhes está sendo oferecida, mais, há uma preocupação muito grande em manter crianças e jovens fora das ruas, ocupados, em um lugar que possa cuidar deles enquanto seus pais estão trabalhando, é com esse intuito que muitas mães procuram as creches, não por acreditarem que a educação infantil de fato fará a diferença na formação de seus filhos. Quanto aqueles que poderíamos classificar como pertencentes à nossa classe média, e como ricos, estes resolveram o problema se refugiando nas escolas privadas, como se não tivessem relação nenhuma com o problema. Conclusão: Já passou da hora de pararmos de assistir passíveis este grande velório de nossa política educacional e do futuro de nossa nação. Saída? Deixar de ver educação como mais uma mercadoria. *Camila Gonçalves De Mario é Cientista Política e Coordenadora do Observatório da Ilegalidade - Grupo Democracia e Cidadania .............................. Continue a leitura da Edição 68 da Revista ReConstruir.
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