Ano 10 - nº 87 - Junho de 2011 - A revista do educador
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Aprendendo Educar
Marcus De Mario
O mundo das crianças

Pesquisa realizada no Brasil com o título "A Descoberta do Brincar" é bastante reveladora sobre o universo infantil e a interação dos pais e dos professores com esse universo. Alguns resultados da pesquisa merecem maior destaque, mas todo o conjunto clama por reflexão e ação para mudança desse universo, sob pena de um impacto negativo na formação da sociedade humana futura.

O estudo revela, através de dados oficiais, que hoje no Brasil temos aproximadamente 31 milhões de pais e 24 milhões de filhos. E o primeiro resultado que nos chama a atenção é que apenas 53% dos pais brincam diariamente com os filhos, e, ainda mais alarmante, apenas 14% dos pais afirmam que brincar com as crianças é uma das atividades que mais lhe dão prazer. A falta de interação entre pais e filhos, entre adultos e crianças, é evidente, sendo que cada vez mais os pais dedicam menos tempo aos filhos. Segundo especialistas entrevistados, os adultos estão mais interessados em suas carreiras profissionais e em realizar seus sonhos, mesmo tendo, com isso, que conviver com estados depressivos dos filhos, o que, pensam eles, é questão para ser resolvida por psicólogos e psiquiatras. Pobres crianças, sofrendo de abandono paterno/materno e classificadas como portadoras de distúrbios psíquicos!

Os adultos precisam lembrar que já foram crianças, já viveram esse universo infantil, não podem simplesmente esquecer essa fase da sua vida, ou mesmo negá-la.

Ainda segundo levantamento feito pelo estudo, a criança que brinca e tem convívio amoroso, centrado no prazer e na alegria:

1. Aprende melhor.

2. Torna-se um adulto mais saudável.

3. Desenvolve melhor auto-estima.

4. Amplia mais a área do cérebro associada à empatia.

E desenvolve seu poder criador - a criatividade.

Uma criança deu o seguinte depoimento: "É legal brincar com o meu pai porque é diferente. Sabe, quando a gente brinca, ele ri bastante, ele não para de rir. É legal ver ele rindo."

Outro resultado produzido pelo estudo que merece bastante atenção é que 97% dos meninos e das meninas afirmam que assistir à televisão é o passatempo mais praticado.

Acontece que mesmo diante da televisão, as crianças necessitam de orientação, o que só pode acontecer se houver o acompanhamento dos pais, auxiliando-as a selecionar os programas, desenvolvendo-lhes o senso crítico e os valores de vida. Se as crianças ficam soltas, ficam expostas à violência, ao consumismo, à sensualidade que estão presentes em boa parte da programação televisiva. Isso vale também para a internet.

Para encerrar nossos destaques dos resultados do estudo, 84% dos pais afirmam que, para estarem preparados para a vida, as crianças precisam estudar mais do que brincar. É uma distorção do que seja a vida, negando a infância e tentando fazer da criança um adulto em miniatura. É uma volta ao passado histórico que tanto a psicologia quanto a pedagogia condenam, pois a infância é um período especial de desenvolvimento do ser humano, não pode ser atropelada por estudos e atividades que visem apenas o preparo para o mercado de trabalho.

Será que nossas crianças devem nascer e em seguida serem colocadas no berçário, na creche, na escola, no clube, no professor particular, no cursinho preparatório, no vestibular, na faculdade, na pós-graduação, tudo isso para terem "sucesso" na vida? E a autoestima? E a vida íntima? E a vida familiar? E a vida social?

Entre as décadas de sessenta e setenta do século vinte, houve um alarme quanto ao futuro da humanidade, que o homem poderia vir a ser dominado pela cibernética, pela robótica, pelas máquinas. Agora compreendemos que houve um erro nessa futurologia. Ninguém levou em conta que o homem poderia ser dominado por ele mesmo, tornando-se uma máquina fria que só sabe competir contra os outros e reclamar das autoridades públicas soluções mágicas para os problemas que ele mesmo, o homem, provoca na sociedade.

E tem gente que, ainda, não está nem aí com a educação, com a formação das novas gerações.


Marcus De Mario é educador, escritor e diretor do IBEM.


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