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Aprendendo Educar

Ano 9 - nº 84 - 15 de julho/agosto de 2010

A tv e sua influência sobre crianças e jovens


por Marcus De Mario*

Em outubro de 1998, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou uma pesquisa sobre os desenhos animados transmitidos pela televisão brasileira com o objetivo de medir a quantidade de violência passada para as crianças. De acordo com a pesquisa, uma criança brasileira que assista a duas horas diárias de desenho animado estará exposta a 40 cenas de violência explícita, já em um mês, seriam 1.200 cenas e, num ano, seriam 14.400 cenas de pura violência sendo produzidas dentro da própria sala de estar das nossas casas.

A criança é um ser em desenvolvimento e, por conseguinte, dependente dos estímulos que recebe para melhor realizar seu crescimento. A criança não possui, portanto, toda a capacidade de pensar livremente e é bastante influenciável e maleável às impressões que recebe. Podemos, agora, imaginar o verdadeiro estrago emocional que os desenhos animados atuais ocasionam às crianças, com cenas violentas se sucedendo, muitas vezes justificadas como ação do bem contra o mal. É uma justificativa sem base lógica, pois o bem não pode cometer os mesmos atos de violência do mal.

Segundo dados do IBOPE, a criança fica, em média, duas horas e meia por dia diante da TV. E a maioria delas fica ali sozinha, sem a participação de pai e mãe, ou seja, sem orientação, absorvendo conteúdos que nem sempre são úteis para sua boa formação moral. Muitos programas televisivos utilizam valores individuais e coletivos distorcidos, passando uma mensagem que sanciona o comum, como a sexualidade sem freios, como se fosse algo normal da vida. Os pais devem estar atentos à programação televisiva, escolhendo o melhor para seus filhos.

Outra pesquisa constatou significativo aumento do tempo gasto com o hábito de assistir à TV. No Brasil, adolescentes passam cerca de cinco horas por dia diante da TV. Sabe-se que uma exposição de apenas 30 segundos a comerciais de alimentos é capaz de influenciar a escolha de crianças por determinados produtos.

A TV é tão poderosa que faz com que da infância para a adolescência o tempo em frente ao aparelho televisivo dobre, passando de duas horas e meia para cinco horas, causando, na maioria dos casos, prejuízos profundos ao adolescente, pois novelas, filmes, programas de auditório, talk shows e outras produções revestem-se de ideologia materialista, consumista e preconceituosa.

Em um estudo da pesquisadora Paula Gomide, dois grupos de crianças assistiram a diferentes desenhos animados: um deles assistiu a um desenho bastante tranqüilo, de animais na floresta; o outro, a um desenho em que os personagens lutavam o tempo todo. Depois, as crianças foram para o recreio e suas brincadeiras foram filmadas. A pesquisadora constatou que as crianças que assistiram ao desenho violento apresentaram muito mais comportamentos agressivos do que as que assistiram ao desenho dos animais na floresta, especialmente os meninos.

É por esse motivo que acreditamos na necessidade de uma reforma na filosofia e na prática educacional. E a primeira escola é o lar, onde os pais devem providenciar para seus filhos orientação moral na formação de um cidadão ético que dê valor à vida; controle sobre suas ações, disciplinando-os e equilibrando a influência que a mídia televisiva exerce; e diálogo constante na construção de um ser pleno.

Ainda outra pesquisa revela que nos Estados Unidos, 750 americanos entre 10 e 16 anos, foram entrevistados sobre a influência da TV: um terço disse que quer experimentar as coisas que vê na televisão; 82% disseram que os programas de TV deveriam ajudar a ensinar o que é certo e o que é errado; quase a metade disse que os programas transmitidos à noite levam a acreditar que a maioria das pessoas é desonesta; mais da metade disse que os programas de TV retratam os pais "bem mais bobos do que são na vida real"; 62% disseram que o sexo na televisão e nos cinemas os influenciam a fazer sexo quando ainda são muito novos.

O resultado não deixa dúvida: a televisão subverte valores, influencia comportamentos, isso porque ela retrata os valores dos seus protagonistas: donos, diretores, escritores, artistas, que montam um mundo fantástico e fantasioso, cheio de "glamour", incutindo no público uma falsa realidade da vida. Ou então, apelam para o sensacionalismo, para o grotesco, para os prêmios, sempre à procura dos melhores índices de audiência e de mais patrocinadores. Claro que em tudo temos exceção, e a televisão também consegue ser boa cultura, e até trabalhar como veículo de educação, mas isso ainda é raro e restrito.

Finalmente, pesquisas comprovam que durante a adolescência, ficar muito tempo ligado na TV contribui para um comportamento agressivo, principalmente porque 60% da programação mostram cenas violentas. Este é o resultado de pesquisa realizada pela Universidade de Columbia com 700 famílias em Nova Iorque, nos Estados Unidos, de 1975 a 2000. Os adolescentes de 12 anos passam pelo menos 50% mais tempo ligados à TV do que em qualquer outra atividade não-escolar, incluindo os deveres de casa, o convívio com a família ou a leitura, como mostra a pesquisa Percepção dos Jovens sobre a violência nos meios de comunicação de massa, realizada em 1998, pela Unesco, com cerca de cinco mil adolescentes de 12 anos de diferentes países. O Exterminador, de Arnold Schwarzenegger, foi o herói citado por 88% dos entrevistados.

O que mais dizer? Todas as pesquisas alertam para uma influência negativa, por parte da televisão, no comportamento de crianças e adolescentes. Não que a televisão, como mídia de comunicação, seja uma invenção ruim. Ela faz parte do progresso humano no campo da tecnologia e é muito útil. Contudo, seu conteúdo está necessitado de uma urgente revisão. Não podemos assistir a continuidade desse quadro. Devemos esclarecer os pais, os avós, os professores do quanto temos de trabalhar a nossa moralização, para podermos modificar os valores de vida dos jovens, único caminho para renovarmos a sociedade e fazermos melhor uso dos meios de comunicação.

Lembremos a frase"tudo me é lícito, mas nem tudo me convém". E para saber escolher, os jovens necessitam estar mais conscientes sobre si mesmos enquanto seres integrais e sobre o porquê da vida. Isso compete à educação, algo mais, bem mais, que a aquisição de conhecimento e o desenvolvimento de habilidades.

Pensemos nisso.

*Marcus De Mario é diretor geral do IBEM, editor-chefe da revista ReConstruir, educador e escritor.

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Continue a leitura da Edição 84 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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