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Aprendendo Educar

Ano 8 - nº 70 - 15 de março de 2009

O amor agora é científico


por Marcus De Mario*

É interessante constatar como a neurociência tem influenciado o pensamento psicológico e pedagógico, transformando o processo ensino-aprendizagem a partir do conhecimento das funções cerebrais. Isso fica bem claro na fala do psicólogo Daniel Goleman em seu famoso livro "Inteligência Emocional":

"A última década (1985-1995), apesar de todas as coisas ruins que nos ofereceu, por outro lado assistiu a uma explosão inédita de estudos científicos sobre a emoção. O que mais impressiona é que agora podemos ver o cérebro em funcionamento, graças às novas tecnologias que permitem a obtenção de imagens desse órgão. Elas tornaram visível, pela primeira vez na história humana, o que sempre foi um grande mistério: como atua essa intricada quantidade de células enquanto pensamos, imaginamos e sonhamos. Essa inundação de dados neurobiológicos permite que entendamos, hoje mais do que nunca, como os centros nervosos nos levam à raiva ou às lágrimas e, como partes mais primitivas do cérebro, que nos incitam a fazer a guerra e o amor, são canalizadas para o melhor ou o pior. Essa luz sem precedentes sobre os mecanismos das emoções e suas deficiências, põe em foco alguns novos remédios para nossa crise emocional coletiva".

Entende a psicologia científica, com base na neurociência, que pensamentos, imaginação e sonhos nada mais são do que funções dos centros nervosos cerebrais, e que são esses centros nervosos que nos fazem agressivos ou pacíficos. Esse entendimento é equivocado, pois toma os efeitos pela causa, mas é um equívoco cientificamente justificado. Expliquemo-nos: a ciência parte da visão materialista sobre o homem, ou seja, que somos um sistema orgânico e nada mais, onde não cabe nenhuma cogitação sobre a alma, ou sobre a psique, como algo fora desse contexto neurobiológico.

É uma posição perigosa, pois equilíbrios e desequilíbrios dos centros nervosos justificariam boas e más ações, amor e ódio, honestidade e corrupção, paz e guerra. Seria o mesmo que afirmar: que culpa tenho eu se usei de violência, pois não tenho como controlar minhas células cerebrais, são elas que me impulsionam a fazer isso ou aquilo!!?

Nossa visão sobre o homem é espiritualista, e confessamos isso sem medo das reações puritanas dos pedagogistas de plantão, que torcem o nariz para qualquer afirmação que não tenha referencial científico acadêmico, ou, ainda pior, que pareça ter algo a ver com religião. Pobres coitados que não conseguem enxergar nem a si próprios, e que, preconceituosamente, rotulam de heresia todo pensamento que não se conforme com sua postura materialista.

Quanto ao argumento que a alma não tem referencial científico acadêmico, é afirmação leviana que denota desconhecimento das pesquisas sérias levadas a efeito por cientistas de diversos institutos e universidades em todo o mundo. Que o pensamento acadêmico materialista predominante, sufoque a divulgação dessas pesquisas, não temos dúvida, mas hoje, mais do que ontem, com a mídia on line disponibilizando milhões de informações, não se pode mais alegar ignorância.

No que se refere ao ranço religioso, desde quando a alma é exclusividade da teologia? Então a psicologia não é o estudo da alma? Por que, para falar da alma, temos necessariamente que declinar uma crença religiosa? São esses preconceitos que deixam em segundo plano na educação idéias e práticas de um Pestalozzi, ou de um Rudolf Steiner, para citarmos dois educadores que estruturaram pesquisas, pensamentos e práticas vendo o homem como alma.

Afinal, por que o cérebro não pode ser instrumento da alma? E o homem, por que não pode ser uma alma? Não estaria a educação bem melhor se essa fosse a base de todos os estudos pedagógicos?

Pensemos nisso.

*Marcus De Mario é diretor geral do IBEM, editor-chefe da revista ReConstruir, educador e escritor.

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Continue a leitura da Edição 70 da Revista ReConstruir.

 

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