|
Entrevista
André
Berge: Liberdade na Educação

André Berge
(1902-1995) foi médico, filósofo e licenciado em letras, tendo escrito
diversos livros na área da psicologia da criança e do adolescente. Dirigiu
o Centro Psicopedagógico Claude Bernard e foi fundador do Instituto de
Psicologia da Sorbonne, na França.
Escreveu diversos
livros, entre eles "Como Educar Pais e Filhos?", "A Educação Sexual e
Afetiva", "Os Defeitos da Criança", "O Colegial Problema".
Para montagem desta
entrevista, a equipe da Revista ReConstruir utilizou seu livro "A Liberdade
na Educação", publicado no Brasil em 1964.
Como o educador
(pais, professores e outros) deve entender a liberdade da criança?
Existem temas cruciais: a liberdade na educação é um deles. Isto se deve
não só à sua importância, mas ainda à sua repercussão, não menos inegável,
sobre a afetividade de todos os educadores, a começar - está claro! -
pelos pais. Convém, antes de considerar a questão, tentar precisar a posição
do adulto em relação a ela. Com efeito, nela o adulto é juiz e parte:
ele pode discutir com relativa obje-tividade das vantagens e dos inconvenientes
de um método de leitura, caligrafia ou cálculo, mas lhe é sem dúvida menos
fácil mostrar-se objetivo quando se trata da liberdade da criança; porque
esta liberdade significa o afrouxamento dos laços de dependência que a
ligam ao adulto. E, além disso, a opinião pública quase não o ajuda a
elevar-se acima desta consideração pessoal, porque se compraz em acusá-lo
de fraqueza, ao mais leve erro das crianças pelas quais é responsável.
Isso quer dizer
que a liberdade não é um problema, mas sim o que fazemos dela?
Um menor comete algum distúrbio? É porque os pais não são bastante severos,
dir-se-á logo. À distância, a maneira forte parece sempre a mais eficaz
e a mais simples. Há sempre alguém para afirmar "que o medo da polícia
é a garantia da ordem" e para recomendar "uma boa palma-da" como remédio
a todos os desvios de conduta dos me-nores. Este qualificativo de "boa",
sem dúvida, não corresponde à apreciação da maioria dos beneficiários:
pode-se deduzir que esta panacéia universal é sobretudo "boa" para aqueles
de quem ela alivia a tensão agressiva. Há muita gente para quem o único
fim da educação é tornar a criança o menos incômoda possível, em resumo,
"neutralizá-la"; para tais pessoas, o problema da liberdade está resolvido
de antemão: a criança só tem de ficar calada e obedecer. Percebe-se, no
entanto, com um pouco de recuo, que não são sempre os mais bem domados
desde criança que dão, em definitivo, menos trabalho aos que convivem
com ele.
Mas os pais costumam
culpar os professores pela falta de limites da criança. Afinal, não é
dever da escola educar?
Sim, é sempre aos educadores que, habitualmente, se pede conta dos fatos
e gestos daqueles a quem devem educar. Nestas condições, compreende-se
que eles sejam tentados a controlar e reger tais fatos e gestos com severidade:
como aceitar serem considerados responsáveis por coisas que não estão
sob seu domínio? Os inspetores de colégios são às vezes levados, por esse
medo, a desejar reduzir os alunos ao silêncio e à imobilidade absoluta,
para evitar todo risco de acidentes e de complicações administrativas.
É normal que se procure, por uma espécie de reflexo de defesa, enquadrar
o aluno em normas e interdições, crendo, por esse meio, proteger-se e
protegê-lo ao mesmo tempo. Mas é desconhecer o perigo de comprimir em
demasia, sem válvula de segurança, forças que tendem naturalmente à expansão.
O educador muitas vezes reage como se fosse diretamente responsável pelo
comportamento dos jovens que lhe são confiados, quando ele o é, mas de
uma maneira indireta: seu papel não é, com efeito, de conduzi-los, mas
de ensinar-lhes a se conduzirem. Nisto é que se encontra o desentendimento,
e a atitude do ambiente é, em geral, pouco apta a dissipá-lo.
Tudo isso representaria
uma luta entre a escola tradicio-nal e a escola renovada?
As controvérsias sobre os antigos e novos métodos de educação também são
mal colocadas, a maior parte das vezes, por causa dessa obsessão em torno
da liberdade da criança. Ouvindo alguns, acreditar-se-ia que é sobre esse
ponto, e só sobre ele, que os dois sistemas se opõem. Os partidários rios
do tradicionalismo acusam os da educação nova de "permitir tudo" e de
manter um estado permanente de anar-quia. Algumas experiências pedagógicas
mal concebidas ou mal organizadas puderam, convenhamos, dar razão a essa
crítica. Mas o que opõe os métodos antigos aos novos é de outra ordem:
nos primeiros, podemos dizer que o eixo da educação passa pelo adulto,
a quem cabe, sozinho, a iniciativa e a responsabilidade, enquanto nos
segundos o eixo passaria pela própria criança, cultivando-se-lhe a iniciativa
e a responsabilidade pessoal. É, no entanto, bastante paradoxal constatar-se
que, justamente no quadro dos primeiros, é que a criança é julgada com
menos indulgência, quando não corresponde satisfatoriamente. No quadro
dos segundos, ao contrário, é o adulto que se costuma condenar no caso
do fracasso, sem dúvida porque os outros adultos não lhe perdoam ter aceito
apagar-se voluntariamente.
E o que fazer diante
desse quadro?
Na vida corrente, pouca gente tem bastante imaginação para inventar outras
atitudes educativas que não sejam a pressão ou a liberdade absoluta. Uma
criança cria alguma dificuldade para os pais? Uns aconselharão fechar
os olhos, armando-se de paciência, outros - mais numerosos - recomendarão
"apertar os parafusos", e quanto mais ineficaz for isto tanto mais será
julgado insuficiente; sem dúvida até o esmagamento total. Mas quem pensará
em mudar o ambiente, em modificar as circunstâncias, em perguntar se não
falta ao interessado alguma coisa de essencial à harmonia do seu desenvolvimento?
Cremos que uma minoria, porque esta maneira de encarar as coisas pede
um esforço intelectual que muitos não têm o tempo (ou a coragem) de empreender.
É mais fácil entregar-se à pressão ou a certa indiferença fatalista, que
se faz muitas vezes passar por liberalismo: vê-se, aliás, freqüentemente,
o adulto oscilar entre os dois extremos, embora essa alternativa seja
talvez pior que a escolha deliberada de uma ou de outra atitude, apesar
dos inconvenientes de cada uma delas.
Podemos dizer que
os adultos temem perder o seu poder diante das crianças, se forem mais
liberais?
Na verdade, a noção de liberdade - até hoje mal definida - é ainda obscurecida
pela tendência instintiva do educador a relacionar tudo com sua própria
pessoa. Para quem detem a autoridade - mesmo que seja em princípio - a
palavra "liberdade" toma logo um acento subversivo. As revoluções são
feitas, em geral, ao grito "abaixo os tiranos!". Afrouxar as rédeas do
poder, não seria arriscar-se a ser confundido, levado, submergido? Um
pai de família expressava clara-mente sua apreensão declarando que temia
acima de tudo "soltar os freios". O que nos dá imediatamente a idéia de
um carro desgovernado! O diretor de um internato recusava aos pais de
um aluno a permissão de deixá-lo sair na véspera de um feriado - já tendo
terminado todas as aulas - porque, dizia, "outros pediriam a mesma licença...e
não haveria mais "barreiras!". De fato, a escola estaria submergida pela
ausência dos alunos: isto é, pelo vazio! O argumento do diretor não era
por isso menos sincero: parecia-lhe que, com a bar-ragem aberta, nada
mais poderia opor-se às forças torrenciais a que tinha a impressão de
resistir. Pela mesma razão, muitos pais respondem "não!" - por reflexo
e sem refletir - a todos os pedidos que lhes são feitos pelos filhos:
defendem-se assim, intuitivamente também, contra uma libertação de que
temem obscuramente ser vítimas.
"Há muita
gente para quem o único fim da educação é tornar a criança o menos incômoda
possível, em resumo, "neutralizá-la"; para tais pessoas, o problema da
liberdade está resolvido de antemão: a criança só tem de ficar calada
e obedecer".
Por que os pais
têm medo de dar liberdade para seus filhos?
A expressão "soltar os freios" é bastante sugestiva e reveladora. Traduz
bem o mal-estar dos educadores - e sobretudo dos pais e mães de família
- diante da atividade autônoma de um obejto vivo que tem a tendência de
considerar como parte de si próprios ou como um prolongamento de suas
personalidades. Um casal moço, quando pensa na sua descendência, não duvida
um só momento que a modelará de acordo com seus desejos. Não é preciso
dizer que os dois consortes consideram que, se não corresponderam totalmente
aos desejos dos próprios pais, a culpa cabia a estes. Mas os dois casos
não lhes parecem ter a menor relação. E assim as primeiras manifestações
de oposição do filho lhes serão escandalosas; em cada família é ao mais
velho que compete a dura tarefa de ensinar aos pais, que, se os filhos
nasceram deles, não deixam de ser, por isso, seres distintos. E é a razão
pela qual os primogênitos conhecem mais dificuldades no seu processo de
crescimento do que os outros irmãos, como o testemunham as estatísticas
de consultas neuropsiquiátricas.
Isso acontece também
com os professores?
Os educadores novatos têm, todos, mais ou menos, esta ilusão exaltante
de dispor de um poder sem limites. Um jovem professor, por exemplo, entrevê
de antemão a maneira pela qual modelará os espíritos e levará sua classe
aos caminhos floridos da cultura e da ciência. Espera de seus alunos uma
espécie de incremento de sua própria personalidade, um alargamento de
seus limites! São, ao contrário, os alunos que o levam o mais rudemente
possível ao sentimento de seus limites, opondo sem escrúpulos suas personalida-des
à dele. É preciso que o mestre tenha muita sabedoria e abnegação para
descobrir que é libertando-se dele que os educandos talvez prestem a mais
bela homenagem ao seu ensinamento.
|

Eventos Duque de Caxias

Assessoria




Análise&Crítica
Blog
|