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Entrevista

Jean Piaget e a Educação do Futuro

Jean Piaget (1896-1980) foi um renomado psicólogo e filósofo suíço, conhecido por seu trabalho pioneiro no campo da inteligência infantil. Piaget passou grande parte de sua carreira profissional interagindo com crianças e estudando seu processo de raciocínio. Seus estudos tiveram um grande impacto sobre os campos da Psicologia e Pedagogia.

Professor das Universidades de Paris e de Genebra, colaborou com a Unesco e deixou dezenas de livros e trabalhos de pesquisa, sendo responsável pelo advento da Psicologia Genética.

Esta entrevista é uma montagem realizada pela equipe da Revista ReConstruir tendo por base o livro "Para Onde Vai a Educação?".

Nos últimos anos as pesquisas psicológicas acerca do desenvolvimento da inteligência e das estruturas cognitivas progrediram. Qual a sua posição?
Nossa direção é de natureza construtivista (o que nos leva a atribuir os começos da linguagem às estruturas construídas pela inteligência sensorial-motora preexistente), isto é, sem preformação exógena (empirismo) ou endógena (inatismo) por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas, o que, do ponto de vista pedagógico, leva incontestavelmente a dar toda ênfase às atividades que favoreçam a espontaneidade da criança.

O senhor é um crítico do ensino e um visionário do futuro. O que precisa ser feito para termos um ensino ligado às exigências humanas atuais?
Parece fora de dúvida que, para reajustar as formações escolares às exigências da sociedade, será preciso proceder a uma revisão dos métodos e do espírito de todo o ensino, muito mais do que contentar-se em apelar para simples fatores de bom senso. Percebe-se que essa forma envolve essencialmente não apenas a didática especial de cada um dos ramos do ensino científico, mas uma série de questões mais gerais, tais como a do papel do ensino pré-escolar, a do significado real dos métodos ativos, a da utilização dos conhecimentos psicológicos adquiridos acerca do conhecimento da criança e do adolescente e a do caráter interdisciplinar necessários das iniciações, e isso em todos os níveis, em oposição ao fracionamento que ainda vigora de forma tão habitual, não só na univer-sidade como nos níveis secundários.

Suas pesquisas parecem mostrar que a adaptação do aluno ao ensino depende muito do caminho trilhado pelo professor.
Em nossas pesquisas, todos os colegiais, das mais variadas idades, e de nível intelectual médio ou superior à média, revelaram a mesma capacidade de iniciativa e de compreensão. Nossa hipótese é portanto a de que as supostas aptidões diferenciadas dos "bons alunos", em igual nível de inteligência, consistem principalmente na sua capacidade de adaptação ao tipo de ensino que lhes é fornecido; os "maus alunos" em algumas matérias, que entretanto são bem suce-didos em outras, estão na realidade perfeitamente aptos a dominar os assuntos que parecem não compreender, contanto que estes lhes cheguem através de outros caminhos: são as "lições" oferecidas que lhes escapam à compreensão, e não a matéria.

Há necessidade de uma grande reforma no ensino?
Sim, e a primeira condição para essa reforma é naturalmente o recurso aos métodos ativos, conferindo-se especial relevo à pesquisa espontânea da criança ou do adolescente e exigindo-se que toda verdade a ser adquirida seja reinventada pelo aluno, ou pelo menos reconstruída e não simplesmente transmitida. Ora, dois freqüentes mal entendidos reduzem bastante o valor das experiências realizadas até agora nesse sentido. O primeiro é o receio (e, para alguns, a esperança) de que se anule o papel do mestre, em tais experiências, e que, visando ao pleno êxito das mesmas, seja necessário deixar os alunos totalmente livres para trabalhar ou brincar segundo melhor lhes aprouver. Mas é evidente que o educador continua indispensável, a título de animador, para criar as situações e armar os dispositivos iniciais capazes de suscitar problemas úteis à criança, e para organizar, em seguida, contra-exemplos que levem à reflexão e obriguem as controle das soluções demasiado apresadas: o que se deseja é que o professor deixe de ser apenas um conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, ao invés de se contentar com a transmissão de soluções já prontas.

Em que consistem os métodos ativos?
Em resumo, o princípio fundamental dos métodos ativos pode ser estabelecido em compreender é inventar, ou re-construir através da reinvenção, e será preciso curvar-se ante tais necessidades se o que se pretende, para o futuro, é moldar indivíduos capazes de produzir ou e criar, e não apenas de repetir.

É possível acelerar os estágios de desenvolvimento da criança? Isso traria algum prejuízo?
A questão é se existe ou não vantagem em acelerar os estágios de desenvolvimento. É claro que toda educação consiste, de uma forma ou de outra, em semelhante aceleração, mas a questão está em estabelecer até onde é ela proveitosa. Ora, não é sem motivo que a infância se prolonga mais no homem do que nas espécies animais inferiores; muito provável pois que se imponha para cada tipo de desenvolvimento uma velocidade ideal, sendo o excesso de rapidez tão prejudicial quanto uma acentuada lentidão. Desconhecemos porém essas leis e, também nesse particular, caberá às pesquisas do futuro esclarecer a educação.

Nos dias atuais fala-se muito em interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, rede curricular, visão sistêmica. Como o senhor encara todas essas questões?
Do ponto de vista pedagógico, estamos diante de uma situação muito complexa, que comporta um belo programa para o futuro, mas que atualmente ainda deixa muito a desejar. Com efeito, se todo mundo se põe a falar das exigências interdisciplinares, a inércia das situações adquiridas - isto é, passadas mas não ultrapassadas - tende à realização de uma simples multidisciplinaridade; trata-se ao contrário de multiplicar os ensinamentos, de tal forma porém que cada espe-cialidade venha a ser ela própria, abordada dentro de um espírito permanentemente interdisciplinar, ou seja, sabendo cada qual generalizar as estruturas que emprega e redistribuí-las nos sistemas de conjunto que englobam as outras disciplinas. Trata-se, em outras palavras, de estarem imbuídos os próprios mestres de um espírito epistemológico bastante amplo a fim de que, sem para tanto negligenciarem o campo da sua especialidade, possa o estudante perceber, de forma continuada, as conexões com o conjunto do sistema das ciências. Ora, tais homens são atualmente raros.

Como essa interdisciplinaridade pode acontecer?
A primeira das lições a extrair das tendências interdisciplinares atuais é a necessidade de uma atenta revisão no tocante às relações futuras entre as ciências chamadas humanas e as ciências chamadas naturais. Do ponto de vista pedagógico, é evidente que a educação se deverá orientar para uma redução geral das barreiras ou para a abertura de múltiplas portas laterais a fim de possibilitar aos alunos a livre transferência de uma seção para outra, com possibilidade de escolha para múltiplas combinações. Mas também será necessário, nesse caso, que se torne cada vez menos bitolado o espírito dos mestres, sendo às vezes mais difícil obter do mestre essa descentralização que do cérebro dos estudantes.

Falando dos mestres, como melhor prepará-los para os desafios do ensino?
A preparação dos professores constitui realmente a questão primordial de todas as reformas pedagógicas em perspectiva, pois, enquanto não for a mesma resolvida de forma satisfatória, será totalmente inútil organizar belos programas ou construir belas teorias a respeito do que deveria ser realizado. Em primeiro lugar existe o problema social da valorização ou revalorização do corpo docente primário e secundário, a cujos serviços não é atribuído o devido valor pela opinião pública, donde o desinteresse e a penúria que se apoderaram dessas profissões e que constituem um dos maiores perigos para o progresso, e mesmo para a sobrevivência de nossas civilizações doentes. A seguir existe a formação intelectual e moral do corpo docente, problema muito difícil, pois quanto melhores são os métodos preconizados para o ensino, mais penoso se torna o ofício de professor, que pres-supõe não só o nível de uma elite do ponto de vista dos co-nhecimentos do aluno e das matérias, como também uma verdadeira vocação para o exercício da profissão. Para esses dois problemas existe uma única e idêntica solução racional: uma formação universitária completa para os mestres de todos os níveis, sobretudo necessária para a formação psicológica satisfatória, e isso para os futuros mestres tanto do nível secundário quanto do primário.

"O direito à educação é portanto, nem mais nem menos, o direito que tem o indivíduo de se desen-volver normalmente, em função das possibilidades de que dispõe, e a obrigação, para a sociedade, de transformar essa possibilidade em realizações efetivas e úteis".

A ética pode ser desenvolvida pela educação, ou em outras palavras, a educação moral é algo prático?
Todos reconhecerão desde logo, até certo ponto, o papel formador da educação moral em oposição às tendências simplesmente hereditárias. Porém aqui, entre a formação moral e a formação intelectual do indivíduo, insere-se a questão de saber se a contribuição exterior que se espera da educação, para completar e informar as disposições individuais, congênitas ou adquiridas, pode ficar limitada a uma simples transmissão de regras e conhecimentos já elaborados. O direito à educação intelectual e moral implica algo mais que um direito a adquirir conhecimentos, ou escutar, e algo mais que uma obrigação a cumprir: trata-se de um direito a forjar determinados instrumentos espirituais, mais preciosos que quaisquer outros, e cuja construção requer uma ambiência social específica, constituída não apenas de submissão. A educação é, por conseguinte, não apenas uma formação, mas uma condição formadora necessária ao próprio desenvolvimento natural.


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