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Os Educadores

Edouard Claparède

Édouard Claparède nasceu em Genebra, Suíça, em 1873, numa tradicional família calvinista. Logo depois de formar-se em medicina, direcionou sua carreira para o campo da psicologia experimental. Alguns de seus estudos influenciaram a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939). Em 1905, publicou Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental, que teve grande repercussão. Em 1912, criou o Instituto Jean-Jacques Rousseau (ou Academia de Genebra), para o estudo da psicologia infantil e sua aplicação no ensino. Seu trabalho foi continuado pelo discípulo Jean Piaget, que, como chefe do instituto, reformulou-o e integrou-o à Universidade de Genebra. Em 1924, Claparède foi um dos redatores do primeiro esboço de uma carta internacional dos direitos da criança e, no ano seguinte, foi co-fundador do Escritório Internacional de Educação, hoje órgão da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). O psicólogo esteve no Brasil, em 1930, a convite de uma ex-aluna, a educadora Helena Antipoff, de Minas Gerais, e aqui terminou de escrever um de seus principais livros, A Educação Funcional. Morreu em Genebra em 1940.

"Uma criança não é uma criança para ser pequena, mas para tornar-se adulta"

Após completar seus estudos médicos em Genebra (1897), passou um ano fazendo pesquisas em Paris, onde conheceu Alfred Binet, um dos principais criadores e aperfeiçoadores dos testes de inteligência, e retornou a Genebra para trabalhar com seu primo, Theodore Flournoy e lecionar na universidade local, ocupando a cátedra de psicologia na Universidade de Gene-bra, onde sucedeu a Theodore Flournoy, seu mestre.

Formulou a lei do interesse momentâneo, segundo a qual o pensamento é uma função biológica a serviço do organismo humano. Tornou-se interessado na psicologia comparada, também dita animal, que o levou mais tarde ao estudo da inteligência humana e do aprendizado, e desenvolveu a tese da escola ativa, que estimula a independência intelectual da criança, fazendo-a atuar sobre o que aprende, em oposição e de grande impacto sobre à educação tradicional da época: a psicologia mecanicista. Com os livros Psy-chologie de l'enfant et pédagogie expé-rimentale (1905) e L'École sur mesure (1921), entre outros, e os trabalhos em psicologia pedagógica desenvolvidos no Instituto Jean-Jacques Rousseau, que fundou (1912), exerceu um papel renovador e pioneiro na educação moderna, que seria retomado por seu conterrâneo Jean Piaget.

Claparède sugeriu que o pensamento ocorre para confrontar situações com as quais não se pode lidar por meio de comportamento aprendido, automático, ou simples reflexo. A tensão que resul-ta da nova situação leva a pessoa a refinar experimentação em tentativa e erro, e isto é o pensamento.

Assim como outros cientificistas de seu tempo entende que a aplicação da ciência às coisas humanas constitui no no final das contas, um progresso.

Adaptação ao ambiente
Claparède defendia uma abordagem funcionalista da psicologia, pela qual o ser humano é, acima de tudo, um organismo que funciona. Os fenômenos psicológicos, para ele, deviam ser abordados do ponto de vista do papel que exercem na vida, do seu lugar no padrão geral de comportamento num determinado momento. Com base nisso, o pensamento é tido como uma atividade biológica a serviço do organismo humano, que é acionado diante de situações com as quais não se pode lidar por meio de comportamento reflexo. Claparède de-fendia o estudo dos processos psicológi-cos como funções de adaptação ao ambiente.

Esse raciocínio levou Claparède a formular a lei da necessidade e do interesse, ou princípio funcional, que o tornou conhecido. Segundo ela, toda atividade desenvolvida pela criança é sempre suscitada por uma necessidade a ser satisfeita e pela qual ela está disposta a mobilizar energias. Cabe então ao professor colocar o aluno na situação adequada para que seu interesse seja despertado e permitir que ele adquira o conhecimento.

Aprendizado ativo
Claparède criticava a escola de seu tempo com os mesmos argumentos do filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952) - com quem compartilhava a pregação por uma escola que chamavam de ativa, na qual a aprendizagem se dá pela resolução de problemas - e dos pedagogos do movimento da Escola Nova. Todos eles condenavam a escola tradicional por considerar o aluno como receptáculo de informações e defendiam a prioridade da educação sobre a instrução. O saber não tem nenhum valor funcional e não é um fim em si mesmo, defendia Claparède.

Surge com esses pensadores a noção de que a atividade, e não a memorização, é o vetor do aprendizado. Daí a importância que Claparède conferia à brincadeira e ao jogo. Eles seriam recursos na estratégia de despertar, no ambiente da escola, as necessidades e interesses do aluno. Seja qual for a atividade que se queira realizar na sala de aula, deve-se encontrar um meio de apresentá-la como um jogo, sugeriu Claparède. Ele sustentava a idéia, totalmente nova para sua época, de que o sujeito psicológico é um sujeito ativo. Segundo o psicólogo, conforme a criança cresce, a idéia de jogo vai sendo substituída pela de trabalho, seu complemento natural.

Como os demais defensores da escola ativa, Claparède condenava o ensino de seu tempo por não dar suficiente infra-estrutura aos educadores para uma prática profissional metódica, amparada pela ciência e que permitisse a atualização constante. Mas ele tinha uma visão bem mais utilitária da escola do que seus pares. Em vez de dar à criança condições de viver da melhor forma possível a infância, ele acreditava que a escola deveria priorizar o rendimento do aluno, ou seja, justificar os recursos fartos que, naquela época, os governos europeus começavam a canalizar para a educação. A escola, segundo Claparède, deveria formar bons quadros profissionais para servir a uma sociedade que investia nessa formação.

Escola para os alunos
Claparède justificava sua proposta de uma escola sob medida dizendo que, na impossibilidade de haver uma escola para cada criança ou para cada tipo de inteligência, o sistema mais próximo disso seria o que permitisse a cada aluno reagrupar o mais livremente possível os elementos favoráveis ao desenvolvimento de suas condutas pessoais. Para isso, o psicólogo pregava reduzir o currículo obrigatório a conteúdos suficientes para a transmissão de um conhecimento que constituísse uma espécie de legado espiritual de uma mesma geração, deixando a maior parte do período letivo para atividades escolhidas pelo próprio aluno.

Claparède recomendava ainda a adoção de outras estratégias, isoladamente ou combinadas, para o melhor aproveitamento das potencialidades intelectuais dos alunos, como as classes paralelas (uma para os estudantes mais inteligentes, outra para aqueles com maior dificuldade de aprendizado) e as classes móveis (que dariam a possibilidade de um mesmo aluno acompanhar diferentes disciplinas em ritmos diferentes, mais acelerados ou mais lentos, de acordo com suas aptidões).

Crescimento e adaptação contínua
A infância estava em alta como objeto de investigação científica nas últimas décadas do século 19. De um lado, a urbanização, a sofisticação dos processos industriais e a disseminação das redes públicas de ensino criavam um interesse inédito pelas crianças. De outro, as ciências da natureza viviam uma fase de euforia sob o impacto das descobertas de Charles Darwin. Foi o próprio Darwin o primeiro cientista a se dedicar ao estudo do desenvolvimento das crianças, quando, em 1840, começou a observar e anotar sistematicamente o processo de crescimento de um de seus filhos. Trabalhos de acompanhamento semelhantes, típico da psicologia experimental, foram aprofundados por outros pioneiros do estudo da criança, como o norte-americano Stanley Hall (1844-1924). Claparède faz parte dessa linhagem e é um típico representante da psicologia influenciada pela biologia e pelo evolucionismo, para quem o conceito de vida corresponde a um processo de adaptação contínuo guiado pela lógica da utilidade e da eficiência. Para Claparède, assim como para os demais representantes do movimento da Escola Nova, o desenvolvimento de cada ser humano e de toda a espécie significa uma luta ou uma procura pela conserva-ção da vida, o que ocorre pela interação com o ambiente. Ao longo do século 20, a infância seria vista segundo outros parâmetros por diferentes escolas de pensamento.

O interesse: noção pedagógica central
A natureza, e, por conseguinte, a criança em estado natural conhece bem suas necessidades que são: em primeiro lugar agir, construir, desenvolver-se atuando e construindo. Desse modo, o interesse dela é, antes que qualquer outra coisa: jogar.

Claparède será o primeiro a perceber todo o alcance da célebre teoria do suíço Karl Groos sobre o jogo da criança.

A criança joga porque encontra seu interesse no jogo e porque, consequen-temente, encontra interesse nele.

Isso porque o jogo é uma das principais necessidades da criança. A tendência lúdica é essencial à natureza da infância. A necessidade de brincar permitiria reconciliar a escola com a vida, possibilitando ao aluno o interesse pelo trabalho escolar. Ou seja, é a partir de uma necessidade que se cria o interesse, e o jogo é a chave mestra desse processo, sendo um meio de despertar o interesse.

Se o interesse é o motor da educação, esta não é em princípio questão de castigo ou sequer de recompensa e, sim, de adequação entre o que se há de fazer e o sujeito que faz. Deste modo a disciplina é uma questão que vem do interior.

A escola deve ser ativa, um laboratório e não um auditório; deve evitar que o trabalho escolar seja detestado.

Nela, o pedagogo é antes de mais nada um "estimulador de interesses".

O entendimento de Claparéde sobre a criança, a educação e a escola vai influenciar vários pensadores e educadores, iniciando um novo tempo


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