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Contando Histórias

Eu e Meus Filhos

Mário Santini

Cheguei à residência do casal amigo no início da noite, onde ficaria para dormir antes de partir para compromisso profissional naquela cidade do interior no dia seguinte. Fui apresentado aos jovens filhos, um casal, que estavam de saída para ir ao baile, afinal era abado à noite.

Meu amigo iniciou a conversa contando-me cenas que, ao mesmo tempo, são hilariantes e reflexivas sobre a preocupação que todo pai tem para com seus filhos. Disse-me ele:

— Sempre fui muito preocupado com o dia em que minha filha me comunicasse o namoro com alguèm.

— Por que? - perguntei eu, ingenuamente.

— Eu ficava pensando no tipo de garoto que ela iria me apresentar. Você sabe, eu não gosto de homem que usa brinco ou qualquer outra coisa parecida no corpo. E jurei a mim mesmo que se o jovem usasse algo assim eu não o aceitaria como namorado de minha filha.

— Você não acha isso puro preconceito?

— Pois é, eu sei disso, mas quando ela chegou um dia e disse que iria me apresentar um rapaz no fim da tarde, eu fiquei louco. Não consegui pelo resto do dia me concentrar em nada, só pensava em como seria ele e que atitude eu deveria tomar.

— E como foi essa apresentação?

Meu amigo deu um sorriso amarelo e prosseguiu:

— Pois é, sabe que o namorado, o tal jovem, era bem simpático, comportado...Tudo o que eu sempre tinha imaginado para minha filha, o príncipe encantado perfeito.

— E você deve ter ficado muito feliz.

— E como! Até o casamento dela comecei a sonhar.

Nesse momento senti vontade de intervir e dar-lhe uns bons conselhos, pois ele estava tirando a liberdade da própria filha, mas resolvi calar e ouvir o resto da história.

— Seis meses depois eles desmancharam o namoro. Fiquei arrasado e voltei a ficar com as mesmas preocupações de antes.

— Mas você precisa entender que essa época dos pais escolherem os maridos e as esposas dos filhos já passou...

— E você pensa que eu não entendi?

Minha curiosidade ficou aguçada e fiz a pergunta fatal:

— Como?

— Foi aqui mesmo nesta sala. Eu não queria deixar os dois irem ao baile num clube por causa da violência, das drogas e tudo o mais. Meu filho então me perguntou como eu havia conhecido sua mãe. Respondi sem pensar: Foi num baile!.

Bem, amigo leitor, você já pode imaginar o inusitado da cena. Meu companheiro de conversa finalmente entendera o que estava fazendo e pediu sinceras desculpas aos filhos.

Preocupações com a vida dos filhos todos os pais tem, mas decidir sobre a vida dos mesmos e escolher até suas companhias reflete um passado da história humana que deve ser superado.

Melhor é ser um amigo orientador, do que um pai autoritário e de difícil diálogo. Podemos sonhar à vontade sobre o futuro de nossos filhos, mas quem deve viver o sonho são eles, senão estamos sujeitos à grande contradição em que caiu meu amigo, não é mesmo?


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