|
|
||
|
Contando Histórias Um Novo Olhar Mário Santini Meia-noite. Tiros ecoam entre as estrelas. Gritos de medo encobrem a lua. Está acontecendo
um tiroteio entre bandidos e policiais. Estou chegando em casa e um rapaz,
de arma em punho, coloca-se á minha frente. Fica frio,
cala a boca e tudo vai bem. Como normalmente sou
calmo, respondi ao rapaz: Não
se preocupe, comigo está tudo bem, você nada precisa temer. Ele não respondeu,
preocupado em olhar para os dois lados da rua, à procura dos policiais.
Como ele não tomasse nenhuma iniciativa, perguntei: Não
é melhor guardar essa arma? Tá louco,
tio, com ela eu me garanto. - foi sua resposta. Garantia do quê?,
pensei, e logo argumentei: Que garantia,
se você pode ser baleado em qualquer esquina, ou mesmo ser morto? Ouvindo minha argumentação
ele fixou seu olhar em mim e retrucou: Você
tem arma melhor? Como quem pergunta
sempre quer uma resposta, não esperei: Tenho, sim.
Mas não é exatamente a arma que você está pensando.
Uso várias armas: o trabalho, a vida honesta, a calma, o caráter
fazendo o bem. Enquanto você está aí morrendo de medo,
eu vivo tranqüilo o meu dia-a-dia, e sem precisar levar qualquer
outra arma. Minhas palavras tiveram
o efeito de despertá-lo: Cara, você
está brincando comigo? Claro que não,
estou falando sério. Daqui a pouco você poderá ser
mais um cadáver ensangüentado no meio da rua, e daí?
Jovem e morto. Valeu a pena? Acredito que não. Seus pensamentos deviam estar bastante confusos e assim ficou em silêncio, como toda a rua, já que não estava mais ouvindo tiros nem vozes. A polícia tinha
tomado outro rumo. Retomei a palavra: Não
sei, meu jovem, o que você fez, mas sempre é tempo de repensar
a vida, de fazer outro caminho e viver melhor. Você
faz o quê? - perguntou. Sou professor
- respondi. Ele guardou a arma
debaixo da camiseta e me disse: É, tô
sabendo...professor. Legal. Você
sabe ler e escrever? Sei não. Então eu lhe convido para ir até a escola aqui do conjunto e me procurar. Sou o professor Mário
e vou lhe ensinar a ler, escrever e outras coisas. Não
posso, tem gente que pode me "queimar" lá. Nesse caso,
aqui é minha casa, as aulas serão aqui, e de graça. O rapaz me olhou,
sorriu e saiu correndo. Duas semanas depois ele apareceu e perguntou se
eu estava afim daquele compromisso. Disse que sim e começamos naquela
noite a primeira aula. Nunca lhe perguntei
sobre sua vida. Tudo o que me disse foi espontâneo e depois de alguns
meses ele desapareceu. Sabe porque estou contando essa história? É que acabo de ver no noticiário da televisão esse rapaz, de terno e gravata, como advogado de gente pobre da comunidade. E muitas pesoas não acreditam no poder da educação e dos bons exemplos. Os direitos autorais pertencem ao IBEM, que permite a reprodução desde que seja citada a fonte. |
Análise&Crítica |