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Contando Histórias

O Que Faltava ao Seu Coração

Mário Santini

Sempre considerei inconcebível bater numa criança. Nunca havia apanhado de minha mãe ou de meu pai, e revoltava-me quando via amigos ou colegas de escola apanharem de seus pais ou mesmo de outros adultos. Achava aquilo uma covardia, uma simples aplicação da lei do mais forte sem nenhum critério de justiça. Por tudo isso decidi ser professora, para mostrar como se deve educar alguém, especialmente uma criança. Bem, assim eu pensava até o início do ano letivo, porque agora já não sei mais.

O Pedrinho, um dos meus alunos, me deixa louca, fora de mim. Garoto levado, sem limites, falta com o respeito a quem quer que seja, tudo resolve na violência contra os outros e me desafia diariamente na sala de aula. Não sei mais o que fazer!

Eu estava com esses pensamentos quando o telefone tocou. Era minha mãe.

— Então, filha, tudo bem com você?

— Sim, mãe, está tudo bem.

— Sua voz está triste, meio perdida, o que está acontecendo?

Mãe é sempre mãe, tem um sentido a mais e capta nossos sentimentos, por isso não pude evitar o assunto.

— É o Pedrinho, aquele meu aluno terrível, não sei mais o que fazer.

— Ele aprontou mais uma, não é mesmo?

— E como, mãe...

— O que você pretende fazer?

Boa pergunta, pensei. Bem que minha mãe podia me dar a resposta.

Fiquei tentada em saber sua opinião e perguntei:

— Mãe, no meu lugar, o que você faria?

— Dava ao Pedrinho tudo o que ele está precisando.

— Como assim, mãe, não entendi?

— Ora, minha filha, então você não percebe que ele lhe desafia e a todos na escola porque está precisando de afeto, de atenção, de estímulos emocionais? Esse garoto precisa também de limites e de tarefas a realizar para compreender as responsabilidades de viver com os outros. Dê-lhe trabalho, deixe-o sentar ao seu lado, diga a ele que você gosta muito dele.

Tive que interromper minha mãe nesse momento, pois considerei que ela estava fora da realidade.

— Que é isso, mãe! Ele é capaz de me dar uma bofetada, isso sim.

— Talvez até tenha o impulso, mas não é provável, porque ninguém, ainda mais uma criança, resiste a um gesto de amor, de carinho, que, com certeza, ele está precisando. Faça a ele o que eu sempre fiz com você.

Agradeci à minha mãe pelos conselhos, conversamos outros assuntos e logo depois me vi entre mil pensamentos sobre que atitudes seriam mais convenientes. Fui dormir sem me decidir e, no dia seguinte, de volta à escola, fiz o que nunca tinha feito. Abracei o Pedrinho, dei-lhe um beijo no rosto e disse que gostava muito dele. O garoto ficou surpreendido e não lhe dei chance alguma para fazer o que sempre fizera: coloquei-o como meu ajudante e fiz com que trabalhasse o tempo todo, mesmo com demonstrações de má vontade de vez em quando.

Dias depois, conversando novamente com minha mãe, ela me perguntou do Pedrinho. Dessa vez sorri, devo mesmo ter ficado corada de felicidade, e respondi:

— Eu o conquistei fazendo o que a senhora me aconselhou.

A felicidade era minha, pois eu estava na frente de batalha, mas sabia a quem devia essa vitória: à minha mãe, que nunca me batera, que sempre me orientara, que sempre me dera amor, justamente o que toda professora devia dar aos seus alunos.

Os direitos autorais pertencem ao IBEM, que permite a reprodução desde que seja citada a fonte.


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