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Artigo
26/11/2007

O Salário e a Qualidade

Marcus De Mario
marcusdemario@educacaomoral.org

Várias pesquisas feitas em países da Europa e também no Brasil (comparando região sudeste com o nordeste) chegaram a uma mesma conclusão: não é o melhor salário do professor que faz ensino de qualidade na escola.

A constatação dessas pesquisas derrubam um mito do meio educacional: aquele que diz que "com esse salário de fome" é impossível trabalhar direito e, portanto, ensinar com qualidade. Não é bem assim. Claro que todo professor merece e tem de ganhar salário digno, que lhe permita viver bem e dedicar-se ao seu trabalho escolar, entretanto, se ele não tiver na alma o ideal da educação, se não tiver no coração o sentimento do amor, se no seu íntimo não gostar do que faz, de nada adiantará receber um bom e digno salário.

As avaliações realizadas pelo Ministério da Educação (MEC) - vou utilizar desse parâmetro, embora seja um crítico dessas avaliações - mostram que escolas públicas situadas em regiões desfavoráveis, como no sertão nordestino, conseguem nível de muito boa qualidade no ensino, em contraste com escolas públicas bem situadas e bem dotados pelo orçamento municipal no sudeste, de baixo rendimento no ensino.

E o que falar de países como Finlândia e Suécia, verdadeiros paraísos celestes para o professorado, e que não conseguiram nos últimos tempos alcançar boa avaliação no ensino em comparação com seus primos pobres da mesma Europa?

Tudo isso demonstra que a relação salário/qualidade de ensino não é o fator preponderante, embora tenha sua influência. A verdade é que o professor pode receber ótimo salário, muito boas condições de trabalho, e mesmo assim não realizar um bom trabalho. Por que? Porque falta nele o amor, a verdadeira dedicação, e isso não são as pesquisas que revelam, e sim o diálogo com os professores e a constatação do que fazem e como fazem na escola.

Uma reportagem mostrou professora pública do interior piauiense que adora o que faz, recicla materiais e trasforma-os em recursos didáticos, fazendo com que seus alunos desenvolvam o aprendizado. Ela é muito querida por alunos e pais. Outra reportagem mostrou escola particular de amplos recursos, informatizada, onde várias professoras apresentam baixo nível de diálogo com os alunos, tendo suas turmas notas ruins em avaliações internas e externas. Onde está a diferença? Está no amor maior ou menor que se tem pela educação.

E o que dizer daquela professora que sempre reclamou do salário e, por esse motivo, tudo fez para ampliar seus estudos, com muito sacrifício, até conseguir tornar-se mestre em educação, passando a trabalhar no ensino superior e como consultora pedagógica, ganhando ótimos rendimentos, e nem assim ficou melhor consigo mesma e com a educação? É que hoje ela está às voltas com dívidas de cartão de crédito e cheque especial, reclamando que o que ganha não é suficiente.

Não é o salário que faz ensino de qualidade. É o amor. É o gostar de educar. É o fazer da possível adversidade uma aliada da criatividade. É o lutar constante pela melhoria de todo o processo educacional. Infelizmente a maioria dos professores dorme na acomodação, e se irrita com aqueles que querem fazer, quanto mais com os que fazem.

Repito: todo professor merece um salário digno, mas se ele continuar sem amor à educação, não é esse salário digno que fará com que o ensino nas escolas tenha melhor qualidade.

Pensemos nisso.

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