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Aprendendo Educar A música educando o sentimento Marcus De Mario A professora Luci,
colaboradora do IBEM, em suas atividades no ensino fundamental da cidade
de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, em plena baixada fluminense,
vem desenvolvendo um trabalho de sensibilização dos sentimentos
através da música, junto a seus alunos, muito interessante,
trabalho esse que ela nos relatou e sobre o qual ajudamos modestamente
com nossas idéias, e que agora trazemos ao conhecimento de todos
para demonstrar a prática da educação moral e seus
resultados positivos. A escola em que a
professora Luci trabalha fica num bairro de subúrbio e recebe crianças
de famílias de baixa renda, todas elas ligadas musicalmente ao
funk, ao rap e ao pagode que, em definitivo, não é o gosto
musical da professora, como ela mesma nos informou. Entretanto, sensível
aos anseios e potencialidades de seus alunos, a professora Luci resolveu
trabalhar com eles os elementos da música, já que a maioria
vivia cantarolando e dançando. Iniciou seu trabalho
introduzindo em sala de aula um rádio gravador, selecionando músicas
de sua preferência para observar as reações das crianças,
reações essas que foram de desagrado: "que coisa horrível",
"não estou entendendo nada", "essa musica não
acaba mais?". A pesquisa musical
que teve início mostrou que os alunos desconheciam os principais
compositores e intérpretes da música popular brasileira,
nada entendiam de música clássica, mas se entusiasmavam
quando as músicas tocadas eram de seu mundo vivencial. Numa segunda etapa,
a professora iniciou conversas sobre o significado das letras, e aqui
mais uma descoberta: a quase totalidade das crianças estava sintonizada
com o ritmo, sem dar importância ao que era cantado e que eles repetiam
exaustivamente. Nesse momento ela
resolveu-se por trabalhar o que mais sensibilizava as crianças:
o ritmo musical, levando para dentro da sala de aula instrumentos musicais
como pandeiros e outros, utilizados pelos pagodeiros, funkeiros e demais
da preferência dos alunos. Para suas colegas de trabalho, a professora
Luci estava transformando a sala de aula num "inferno barulhento"
e num verdadeiro "chiqueiro" com aquela algazarra, aquelas músicas,
aqueles trabalhos de pesquisa, recorte, colagem que os alunos passaram
a fazer, pesquisando o universo musical de que tanto gostavam. Várias descobertas
foram feitas pelos alunos: as músicas se diferenciam pelo seu ritmo;
toda música é composta de melodia e letra; as letras possuem
significados; os instrumentos musicais é que fazem o ritmo e assim
por diante. E mais importante: seus alunos descobriram a própria
capacidade crítica com relação à música
que ouvem e a capacidade construtiva de poderem compor também melodias
e letras. A partir do estudo
das letras das músicas, a professora Luci introduziu a poesia,
isso mesmo, porque as letras quase sempre são poemas de versos
livres. Fez com que as crianças
começassem a adquirir o hábito de ler a letra, de interpretá-la,
de conhecer seus significados, de criticá-la para, num segundo
momento, terem o espírito crítico da escolha, não
saírem cantando apenas porque o ritmo é "gostoso",
mas pelo bom teor da mensagem. O tempo foi passando
e as crianças começaram a distinguir nas músicas
os valores humanos, sempre trabalhando o funk, o rap e o pagode, tendo
inclusive feito composições próprias, utilizadas
nos conteúdos curriculares. Foi quando demos algumas
modestas sugestões. Era o momento de introduzir, pouco a pouco,
novos universos musicais, como a bossa nova, a mpb, o rock e a música
clássica. iniciar um trabalho introduzindo a orquestração,
ou seja, mostrar o funcionamento de um conjunto musical, de um pequeno
grupo pagodeiro a uma orquestra, para que eles pudessem entender aquele
"barulho estranho". Também sugerimos um trabalho voltado
à história da música e a aplicação
de exercícios de sensibilização musical, utilizando
músicas mais calmas, levando as crianças, através
dessas melodias e palavras suaves, a relaxarem, conduzindo o pensamento
para as coisas da natureza, até que elas mesmas se vissem nesses
ambientes, se sentissem como seres atuantes, em ritmo harmonioso consigo
mesmas e com a vida. E ela nos contou,
emocionada, as demonstrações de carinho de seus alunos,
a evolução dos mesmos desde a melhora da coordenação
motora até a leitura com desenvoltura. O interesse pelas pesquisas
e as composições musicais espontâneas, algumas dedicadas
a ela. O trabalho da professora
Luci prossegue, dando vários resultados, como a melhora do processo
de alfabetização, o despertamento pela leitura, o desenvolvimento
da escrita, a construção da identidade crítica e,
o mais importante, a sensibilização dos alunos para os verdadeiros
valores humanos. De uma escola pública comum, igual a tantas outras, onde os professores habituaram-se a reclamar dessas crianças malcriadas, violentas, insensíveis, ignorantes, a professora Luci, acreditando com todo amor nas potencialidades desses seres humanos ainda no estado infantil, dá-nos prova que a educação dos sentimentos revela forças ocultas que esperam apenas um toque de carinho e interesse para desabrocharem.
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Análise&Crítica |