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A Educação do Educador

Marcus De Mario

SEGUNDO DADOS RECENTES do Inep/MEC, 74% da nossa população não é plenamente alfabetizada. E mais, o índice de repetentes na primeira série do ensino fundamental é de 32%. Esses e tantos outros índices mos-trados pelas pesquisas e censos realizados nos diferentes níveis do ensino brasileiro, têm provocado intensa reflexão sobre o papel do professor. Qual o tamanho da sua influência no processo educacional, e até que ponto ele, o professor, é culpado pelos fracassos do rendimen-to escolar e pela má formação de um cidadão mais consciente?

Como a educação deve ser entendida como um processo, vários fatores devem ser lembrados, mas nossa análise, sem descartar a existência de outros fatores contributivos para os insucessos educacionais, ficará mais específica sobre o professor, afinal ele é o senhor da sala de aula, é aquele que exerce grande influência sobre os alunos, pois convive com eles diariamente, servindo mesmo de modelo para crianças e adolescentes em desenvolvimento.

Se temos um analfabetismo tão grande, e uma taxa de repetência que é dez vezes maior do que a média dos chamados países desenvolvidos, até onde esse quadro é responsabilidade do professor? Ou será que a responsabilidade cabe apenas ao governo, à família, à sociedade e outros fatores? Pelo menos esse sempre foi o discurso, eximindo o professor de maior responsabilidade. Entretanto, os tempos são outros, já não é possível isentar o professor de culpabilidade pelas distorções e fracassos do sistema de ensino, afinal ele é quem ensina, é quem transmite conhecimentos, é quem trabalha valores. E como está fazendo tudo isso?

O nível de comprometimento do professor com a edu-cação, com o processo de desenvolvimento intelectual e moral do aluno, faz toda a diferença, porque ser profes-sor não é igual a qualquer profissão. O cidadão de amanhã, que faz a sociedade, é produto - no bem sentido - da educação, e eis aqui a grave questão: a maioria dos professores está engajada no ensinar, e não no educar. E mesmo assim nem sempre ensinam direito. E como são refratários, os professores, às críticas sobre o ensi-nar, como se o professor nunca errasse, nunca falhasse e, pelo contrário, sempre estivesse certo. Isso não é verdade. Não consta que o professor seja super-homem, infalível e intocável, bem pelo contrário, é um ser huma-no como qualquer outro, sujeito à capacitação contínua, à revisão de procedimentos e à reconstrução de valores.

Pois bem, vejamos agora a missão do professor, que necessita compreender com urgência que ele é um educador, e não simplesmente um passador de conteúdos curriculares. Mais além do que um facilitador do processo ensino-aprendizagem, é o professor um orientador da formação integral do educando.

Constatação básica da educação é que o professor que ensina, mas não exemplifica, está longe de ser um verdadeiro educador. Que adianta fazer discurso sobre os malefícios das drogas à saúde, se, às escondidas, ou mesmo abertamente, o professor fuma? Como exigir disciplina dos alunos, se o próprio professor é indiscipli-nado, não cumprindo horários e mostrando desorganiza-ção? Não basta querer bom comportamento dos alunos, é necessário também dar o exemplo de bom comporta-mento, não gritando, não discutindo, não falando mal dos colegas.

Os alunos analisam o professor, conceituam o mestre, e o respeitam na medida em que ele se fizer respeitado, não pelos sermões em sala de aula, ou pelas duras exigências disciplinares, mas pelos exemplos, dignos ou não, que tenha. Turmas indisciplinadas muitas vezes refletem professores sem autoridade moral, que dão aula de forma burocrática, sem motivação, sem criatividade, que não utilizam a realidade da vida dos educandos para enriquecer os conteúdos estudados.

Também temos professores que repetem conteúdos e procedimentos pedagógicos ano após ano, sem mudança, desmotivando os alunos e impelindo-os a desafiarem o professor e a escola, pois não percebem sentido mais profundo nos estudos.

A arte de ser um perfeito mau professor

Esse é o título de um livro (de 1967) do famoso escritor Malba Tahan, onde ele lista diversas atitudes negativas do professor, com suas péssimas conseqüências. Eis uma síntese:

" Improvisação no ensino.
" Falta de roteiro definido para a aula.
" Inimizade com colegas e superiores.
" Falta de assiduidade e pontualidade.
" Conversações inúteis em sala de aula.
" Não cumprimento do programa letivo.
" Não interatividade com os outros professores.
" Dependência ao livro didático recomendado.
" Insuficiente cultura geral.
" Rotina repetida à exaustão.
" Severidade excessiva com os alunos.
" Desrespeito ao aluno.
" Vaidade excessiva.
" Negligência e incapacidade em avaliar.

Ainda hoje encontramos professores classificáveis em um ou mais itens.

Desde que o professor não se conscientiza de sua missão e pouca importância dá para a educação moral, somando-se isso aos outros fatores que influenciam os maus resultados do sistema de ensino, temos uma questão complexa para resolver, difícil, mas não impossível de resolver.

Vamos, então, a algumas propostas, com referência ao professor, para melhorar o quadro atual de nossa educação.

O que podemos fazer

1. Reformular a formação do professor, dando a ele nova capacitação, com estudo mais profundo da filosofia da educação, ampliação da experiência prática, conhecimento de metodologias e atividades específicas, utilização de novas tecnologias. É preciso reformular os cursos de formação, tanto do nível médio quanto superior, e também ampliar a oferta dos cursos de especialização, nivelamento e extensão, para que o professor possa dar continuidade à sua capacitação.

2. Melhorar o nível salarial do professor, para que ele não necessite trabalhar em mais de uma escola, possibilitando assim que ele conheça com mais profundidade os alunos das turmas em que dá aula, assim como poderá interagir com seus colegas de trabalho na escola. Como pode um professor, que é responsável por dezenas e centenas de outros seres humanos, não receber um salário que lhe dê uma vida digna?

3. Transformar as escolas em seus equipamentos, mo-dernizando-as pedagogicamente e transformando-as em escolas de horário de tempo integral, permitindo ao pro-fessor ter à disposição todo material necessário para dar boas aulas, assim como permitindo dedicação exclusiva, com tempo para estudar, preparar aulas e interagir com colegas, pais e alunos.

4. E o mais importante, ligado aos cursos de formação e à orientação pedagógica da escola: possibilitar ao professor espaço de estudo e trabalho para sua auto-educação, para sua própria formação moral. Sem essa possibilidade, não haverá real condição de transformar-se em educador.


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