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Aprendendo Educar

Qual o Papel da Escola?

Marcus De Mario

Vários educadores e analistas sociais estão discursando sobre o atual divórcio entre o diploma e o emprego, ou seja, que a formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou acadêmico (ensino superior) não significa, necessariamente, a garantia de um emprego na profissão desejada e para a qual o indivíduo se preparou. Como esse contexto é uma realidade nos países em que predomina o capital neo-liberal, onde a competitividade e a qualificação da mão de obra são constantes, perguntam-se os especialistas sobre o verdadeiro papel da escola, ou seja, qual o seu significado na sociedade e quais são suas finalidades.
Essa análise não pode prescindir de uma visão histórica, pois a escola como a conhecemos é recente, surgida na metade do século XIX e consolidada nas primeiras décadas do século XX com o advento dos siste-mas públicos de ensino. Inicialmente ela serviu de reprodutora do sistema político e cultural vigente, com o papel de transmitir conhecimentos, de alfabetizar e diplomar. Face a educa-dores que entenderam ser a criança e o adolescente não um adulto em mi-niatura, mas um ser em desenvolvi-mento, com características próprias, esse quadro pouco a pouco foi sendo modificado, com a introdução da escola do trabalho, da escola nova, de espaços para discussão psicológica do ser. Entretanto, continuou a escola a ser prioritariamente lugar de ensi-no, de instrução intelectual, com a educação sendo confundida com o ato de ensinar o conteúdo da matéria curricular.
A corrida pela industrialização e depois pelo desenvolvimento tecnológico, trouxe à tona o ensino profissionalizante, mas o capitalismo econômico que visa o lucro empresarial não garante o emprego, procurando substituir o empregado de salário maior pelo estagiário ou empregado de início de carreira, achatando os salários, colocando assim o ensino técnico de nível médio em situação difícil.
Para agravar essa situação, os pais continuam a sonhar com o diploma universitário de seus filhos, como se esse canudo de papel fosse o fim supremo da vida e garantisse uma boa existência, o que não é ver-dade. Tudo fazem para garantir a carreira universitária de seus filhos, e deixam de lado o que é mais impor-tante: garantir a formação moral de seus filhos. Ainda a partir da análise histórica, a escola dos últimos tempos separou o ensino da realidade de vida dos alunos. O professor é um profissional do ensino atrelado à cartilha e ao livro didático, ao currículo e o livro de chamada, às provas e os trabalhos de recorte e colagem, com dificuldade para alcançar o significado e, consequentemente, a prática da formação da cidadania, como deseja hoje a política educacional.
É claro que nessa análise a partir da história da escola, temos os que fogem a essa regra geral, os que mudam os paradigmas, os que não apenas lutam mas realizam, provocando mudanças no cenário do ensino que se pratica na escola, seja ela pública ou particular.

A finalidade da escola
E então podemos perguntar: qual o papel da escola na vida humana? Será transmitir conhecimento? Sim, devemos responder, essa é uma das finalidades da escola. Mas como deve ser transmitido esse conheci-mento? A melhor resposta é aquela que aponta o caminho do dinamismo, da criatividade, da exploração das potencialidades do educando, levando em consideração a própria existência do indivíduo e da comunidade na qual ele está inserido.
Ao encontrarmos uma primeira finalidade devemos sair à procura de uma segunda finalidade, e de uma terceira, talvez mesmo de uma quarta e quinta. E não poderíamos deixar de apontar a formação do caráter, sob pena de descaracterizarmos a educação, pois a escola não pode estar desvinculada dos preceitos maiores da educação. Tanto essa finalidade da formação do caráter existe que a encontramos na própria Lei de Diretrizes e Bases da Educa-ção Nacional, como podemos ler no seu artigo 32:
"O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão mediante:
I - o desenvolvimento da capacidade de aprender(...);
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valo-res em que se fundamentam a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem(...)e a forma-ção de atitudes e valores;
IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidarie-dade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.".
O que é compreender os va-lores em que se fundamenta a sociedade? Qual o significado de formar atitudes e valores? Como interpretar o trabalho de fortalecer os laços de solidariedade humana? Certamente não estamos falando de aulas em que serão trabalhados conceitos abstratos para serem decorados e exibidos numa prova, mas sim de educação plena do indivíduo, educação profunda para o melhor exercício do viver, fazendo com que ele estude, reflita e pratique sobre valores humanos, sobre ética do comportamento, ou seja, estamos falando em formar e não apenas instruir. Eis aqui o verdadeiro papel da escola.

A escola do sentimento
È pelos motivos expostos até agora que defendemos a Escola do Sentimento, ou seja, a escola que trabalha ao mesmo tempo a instrução e a formação, o desenvolvimento do intelecto e da moral, cujos passos estão sendo ensaiados, pelo menos no corpo da lei, com os temas transversais permeando o currículo, como no caso da ética. Mas a Escola do Sen-timento é muito mais do que o trabalhar de projetos ou temas transver-sais, pois seu pressuposto básico é o amor pedagógico e a fusão entre o trabalho do educando e os estímulos da família e da sociedade.
A Escola do Sentimento é a escola de formação do educando, trazendo a vida para dentro da sala de aula, trabalhando a sensibilidade e os valores humanos, desenvolvendo a formação moral para termos no terceiro milênio um novo homem no mundo.
Que as práticas do processo ensino-aprendizagem necessitam serem repensadas, não padece dúvi-da. Que a formação dos profissionais da educação necessita de reformulação, também não se questiona. Que a escola necessita vincular-se à vida humana, também não se contesta. Mas, acima de tudo isso, é preciso colocar a escola sob a regência da filosofia da educação, essa filosofia que compreende o homem como ser integral e a vida como exercício ético consciente da cidadania.
Então os diplomas serão substituídos pela avaliação qualitati-va do progresso do indivíduo, e o emprego será o trabalho que melhor corresponda às potencialidades desse ser humano, sem capitalismo selva-gem e sem instrução "decoreba" e inútil.

 


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